Cyntia Pinheiro
Jesus, vinde ao meu coração neste Natal, acalmai a saudade, abrandai a ira, apaziguai.
Obrigada pelo ano maravilhoso que foi 2011, um ano sem igual para mim, em que muitas coisas conquistei pela tua graça abundante em minha vida.
Se hoje meu coração está triste, é só saudade, porque tenho todos os motivos do mundo para ser grata e comemorar.
Abençoe esse serzinho novo que carrego em meu ventre, pa...ra que ele chegue cheio de saúde e serenidade, assim como já abençoaste o meu menino-anjo Samuel, que é tão especial.
Obrigada por tudo, Jesus. Obrigada porque posso sentir o seu carinho todas as manhãs, na renovação do dia, no canto dos passarinhos que daqui consigo ouvir com fartura, no sorriso do meu filho, no abraço do meu esposo amado.
Grata sou, por cada dia vivido e por tudo o que virá.
Assim seja!
Graças a Deus e Graças a Jesus!
"Cada Espírito é um mundo onde o Cristo deve nascer. Se Jesus não nascer e crescer, na manjedoura de nossa alma, em vão os Anos Novos se abrirão iluminados para nós." (HUmberto de Campos / Emmanuel / Chico Xavier)
sábado, 24 de dezembro de 2011
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
O macaco-barrigudo
Cyntia Pinheiro
Na floresta Amazônica, no alto do mapa do Brasil, onde o rio Amazonas faz uma curva em forma de "S" vivia um macaco-barrigudo muito especial. Ele adorava lavar seus olhinhos redondos na barriguinha do "S" do rio todas as manhãs ao acordar e saia logo assobiando no melhor astral.
Gostava de comer frutinhas, no alto das árvores e fazer graça com sua amiga da mesma raça, a macaquinha que carinhosamente ele chamava de "Pancinha".
Pancinha o apelidou de "Fofo", por causa da sua forma redonda e peluda. Ele ficava meio sem graça com esse apelido, mas até que gostava dos carinhos da Pancinha.Lá no alto da árvore os dois amigos trocavam gentilezas, comendo frutas deliciosas, apreciando a vista e fazendo piruetas magistrais no topo das árvores.
Um dia, porém, avistaram uma coisa terrível do outro lado do rio. Era uma nuvem escura de fumaça, muito grande mesmo que ia do chão ao céu, numa vista infernal. Não tiveram dúvidas, a floresta estava pegando fogo.
Fofo e Pancinha pularam o mais depressa que podiam e começaram a se agitar no alto das árvores para chamar a atenção dos outros bichos, logo dezenas de animais se reuniam sob o gigante Jequitibá para uma reunião de emergência. Vieram bichos de todas as espécies para saber o que estava acontecendo.
- E agora, amiguinhos? A floresta parece estar pegando fogo. - disse Pancinha com um olhar aflito.
- Isso mesmo, vimos uma nuvem terrível de fumaça do outro lado do rio, temos que fazer alguma coisa. - Acrescentou o macaco Fofo.
- Mas o que fazer? Como chegar até o lado de lá do rio? - Indagou o macaco-aranha.
- Teremos que dar um jeito nisso. - Retrucou a Onça Pintada.
Os bichos então, decidiram que ajudariam a salvar a mata, pois ali era a sua casa e do outro lado onde a floresta ardia no fogo quente havia outros bichos precisando de ajuda. Se organizaram em equipes e foram para a beira do rio. Lá chegando um bando de jacarés e crocodilos os aguardavam para dar carona. O macaco Fofo e a macaca Pancinha foram os primeiros a subir nos bichos, quase todos os animais conseguiram ser transportados à outra margem.
Lá chegando ficaram ainda mais assustados com tanto fogo e tanta fumaça, havia muitos bichos que estavam perdidos no meio da nuvem escura e já não conseguiam respirar direito. Os amigos salvadores foram encaminhando os bichinhos perdidos para os crocodilos que os levaram em segurança para a outra margem, fazendo um rápido resgate.
Nossos heróis corriam muito pra tentar conter o fogo, mas não conseguiam muita coisa, os olhinhos do macaco-barrigudo ardiam muito, a onça pintada tossia demais e até a pobre da Pancinha já não conseguia nem mais ficar de pé de tão cansada. E o fogo não diminuia.
Passarinhos enchiam seus biquinhos de água e traziam para jogar no fogo, mas ele insistia em se propagar. Até que, de repente, quando as forças já tinham se esgotado, ouviu-se um estrondo bem forte e começaram a cair gotinhas de uma chuva abençoada. Choveu sem parar por muito tempo e nossos amiguinhos, exaustos que estavam, nem perceberam as primeiras gotinhas que lhes lambiam os pelos, pois já estavam todos caídos no chão inertes de tão cansados.
Depois de um tempo, Pancinha acordou e viu que o fogo havia sido apagado pela chuva. Ficou triste porque o cenário ali era desolador. Havia um grande buraco na mata, o fogo consumiu um grande pedaço de vegetação e muitos bichinhos jaziam no meio do clarão.
Procurou seu amigo Fofo e não o encontrou, aos poucos os bichinhos que sobreviveram foram acordando e ficavam estupefatos quando percebiam o que havia acontecido com seu habitat.
- Quem faria uma coisa dessas? - perguntou desconsolada a pobre Pancinha.
- Só mesmo algum bicho muito burro e cruel pra colocar fogo na própria casa e pra matar tanto bicho inocente. - disse furioso o cachorro-vinagre.
- Vejam! - convidou a jaguatirica. - Pode ser uma pista.
Todos os bichinhos olharam na mesma direção, onde haviam cabaninhas de madeira com roupas penduradas nos varais e restos de comida em grandes caldeirões. Foi então que o astuto Gavião-real concluiu:
- Conheço esse bicho, é o bicho-homem que sempre chega destruindo tudo por onde passa...
Todos os animais estavam muito tristes e indignados, principalmente quando viam seus amiguinhos sem vida deitadinhos no chão ainda coberto de cinzas das árvores mortas.
Pancinha, desesperada, só queria saber onde estava seu amigo Fofo. Não o encontrava em lugar nenhum. Foi quando todos os amiguinhos resolveram sair dali para procurá-lo.
Mais adiante avistaram uma aldeia de índios que também eram nativos da região e zelavam pela natureza. Perguntaram por Fofo e foram informados de que um macaco-barrigudo estivera ali mais cedo, pedindo aos índios que fizessem a dança da chuva para tentar salvar a floresta. Pancinha logo entendeu que se tratava do Fofo, mas onde ele estaria agora?
Continuaram procurando pelo amiguinho e se assutaram muito quando o viram caído no meio de uma trilha na floresta. Parte do pelo dele estava queimada e ele tinha na mãozinha uma cuia onde ainda havia um restinho de água que ele usara para tentar conter o fogo. Infelizmente seu corpinho estava sem vida.
Pancinha chorou muito de saudades do seu melhor amigo. Todos ficaram comovidos com a cena triste, mas entenderam que Fofo foi, na verdade, um grande herói, pois quando ele percebeu que todos morreriam em razão do incêndio, arriscou a própria vida para pedir socorro aos índios. E a floresta foi salva por causa de sua atitude.
Embora Pancinha estivesse triste, estava também orgulhosa do seu amigo. Todos os bichos reconheceram o seu valor. E a floresta se uniu por uma causa: cuidar da natureza e não permitir mais que isso aconteça.
Só que o bicho-homem é implacável e não se cansa de atacar a floresta e seus bichinhos, por isso essa história chegou até você. Será que podemos fazer algo para preservar a natureza e salvar o lugar onde vivemos?
Na floresta Amazônica, no alto do mapa do Brasil, onde o rio Amazonas faz uma curva em forma de "S" vivia um macaco-barrigudo muito especial. Ele adorava lavar seus olhinhos redondos na barriguinha do "S" do rio todas as manhãs ao acordar e saia logo assobiando no melhor astral.
Gostava de comer frutinhas, no alto das árvores e fazer graça com sua amiga da mesma raça, a macaquinha que carinhosamente ele chamava de "Pancinha".
Pancinha o apelidou de "Fofo", por causa da sua forma redonda e peluda. Ele ficava meio sem graça com esse apelido, mas até que gostava dos carinhos da Pancinha.Lá no alto da árvore os dois amigos trocavam gentilezas, comendo frutas deliciosas, apreciando a vista e fazendo piruetas magistrais no topo das árvores.
Um dia, porém, avistaram uma coisa terrível do outro lado do rio. Era uma nuvem escura de fumaça, muito grande mesmo que ia do chão ao céu, numa vista infernal. Não tiveram dúvidas, a floresta estava pegando fogo.
Fofo e Pancinha pularam o mais depressa que podiam e começaram a se agitar no alto das árvores para chamar a atenção dos outros bichos, logo dezenas de animais se reuniam sob o gigante Jequitibá para uma reunião de emergência. Vieram bichos de todas as espécies para saber o que estava acontecendo.
- E agora, amiguinhos? A floresta parece estar pegando fogo. - disse Pancinha com um olhar aflito.
- Isso mesmo, vimos uma nuvem terrível de fumaça do outro lado do rio, temos que fazer alguma coisa. - Acrescentou o macaco Fofo.
- Mas o que fazer? Como chegar até o lado de lá do rio? - Indagou o macaco-aranha.
- Teremos que dar um jeito nisso. - Retrucou a Onça Pintada.
Os bichos então, decidiram que ajudariam a salvar a mata, pois ali era a sua casa e do outro lado onde a floresta ardia no fogo quente havia outros bichos precisando de ajuda. Se organizaram em equipes e foram para a beira do rio. Lá chegando um bando de jacarés e crocodilos os aguardavam para dar carona. O macaco Fofo e a macaca Pancinha foram os primeiros a subir nos bichos, quase todos os animais conseguiram ser transportados à outra margem.
Lá chegando ficaram ainda mais assustados com tanto fogo e tanta fumaça, havia muitos bichos que estavam perdidos no meio da nuvem escura e já não conseguiam respirar direito. Os amigos salvadores foram encaminhando os bichinhos perdidos para os crocodilos que os levaram em segurança para a outra margem, fazendo um rápido resgate.
Nossos heróis corriam muito pra tentar conter o fogo, mas não conseguiam muita coisa, os olhinhos do macaco-barrigudo ardiam muito, a onça pintada tossia demais e até a pobre da Pancinha já não conseguia nem mais ficar de pé de tão cansada. E o fogo não diminuia.
Passarinhos enchiam seus biquinhos de água e traziam para jogar no fogo, mas ele insistia em se propagar. Até que, de repente, quando as forças já tinham se esgotado, ouviu-se um estrondo bem forte e começaram a cair gotinhas de uma chuva abençoada. Choveu sem parar por muito tempo e nossos amiguinhos, exaustos que estavam, nem perceberam as primeiras gotinhas que lhes lambiam os pelos, pois já estavam todos caídos no chão inertes de tão cansados.
Depois de um tempo, Pancinha acordou e viu que o fogo havia sido apagado pela chuva. Ficou triste porque o cenário ali era desolador. Havia um grande buraco na mata, o fogo consumiu um grande pedaço de vegetação e muitos bichinhos jaziam no meio do clarão.
Procurou seu amigo Fofo e não o encontrou, aos poucos os bichinhos que sobreviveram foram acordando e ficavam estupefatos quando percebiam o que havia acontecido com seu habitat.
- Quem faria uma coisa dessas? - perguntou desconsolada a pobre Pancinha.
- Só mesmo algum bicho muito burro e cruel pra colocar fogo na própria casa e pra matar tanto bicho inocente. - disse furioso o cachorro-vinagre.
- Vejam! - convidou a jaguatirica. - Pode ser uma pista.
Todos os bichinhos olharam na mesma direção, onde haviam cabaninhas de madeira com roupas penduradas nos varais e restos de comida em grandes caldeirões. Foi então que o astuto Gavião-real concluiu:
- Conheço esse bicho, é o bicho-homem que sempre chega destruindo tudo por onde passa...
Todos os animais estavam muito tristes e indignados, principalmente quando viam seus amiguinhos sem vida deitadinhos no chão ainda coberto de cinzas das árvores mortas.
Pancinha, desesperada, só queria saber onde estava seu amigo Fofo. Não o encontrava em lugar nenhum. Foi quando todos os amiguinhos resolveram sair dali para procurá-lo.
Mais adiante avistaram uma aldeia de índios que também eram nativos da região e zelavam pela natureza. Perguntaram por Fofo e foram informados de que um macaco-barrigudo estivera ali mais cedo, pedindo aos índios que fizessem a dança da chuva para tentar salvar a floresta. Pancinha logo entendeu que se tratava do Fofo, mas onde ele estaria agora?
Continuaram procurando pelo amiguinho e se assutaram muito quando o viram caído no meio de uma trilha na floresta. Parte do pelo dele estava queimada e ele tinha na mãozinha uma cuia onde ainda havia um restinho de água que ele usara para tentar conter o fogo. Infelizmente seu corpinho estava sem vida.
Pancinha chorou muito de saudades do seu melhor amigo. Todos ficaram comovidos com a cena triste, mas entenderam que Fofo foi, na verdade, um grande herói, pois quando ele percebeu que todos morreriam em razão do incêndio, arriscou a própria vida para pedir socorro aos índios. E a floresta foi salva por causa de sua atitude.
Embora Pancinha estivesse triste, estava também orgulhosa do seu amigo. Todos os bichos reconheceram o seu valor. E a floresta se uniu por uma causa: cuidar da natureza e não permitir mais que isso aconteça.
Só que o bicho-homem é implacável e não se cansa de atacar a floresta e seus bichinhos, por isso essa história chegou até você. Será que podemos fazer algo para preservar a natureza e salvar o lugar onde vivemos?
sábado, 3 de dezembro de 2011
Dia de chuva - (para os meus filhotes)
Cyntia Pinheiro
Tilinta a chuva que cai da nuvem densa
Espremem os anjos o algodão fofinho
De onde respingam gotinhas claras
Que escurecem o dia outrora azulzinho.
O arco-íris divide o céu em dois
Lá em cima, Deus com suas barbas brancas
Embaixo, nós com nossas almas tantas
E o barulhinho bom do som da chuva caindo.
Lagartixas se escondem nos buracos da parede
Passarinhos se aquecem nos ninhos quentinhos
E todos os bichinhos se escondem da chuva
Até a gente quer cama e carinho.
Tilinta a chuva que cai da nuvem densa
Espremem os anjos o algodão fofinho
De onde respingam gotinhas claras
Que escurecem o dia outrora azulzinho.
O arco-íris divide o céu em dois
Lá em cima, Deus com suas barbas brancas
Embaixo, nós com nossas almas tantas
E o barulhinho bom do som da chuva caindo.
Lagartixas se escondem nos buracos da parede
Passarinhos se aquecem nos ninhos quentinhos
E todos os bichinhos se escondem da chuva
Até a gente quer cama e carinho.
Processo Civil Romântico
Cyntia Pinheiro
Quem imagina que aula de direito é só teoria e pouco ou nenhum romantismo se engana. No quinto período de Direito, nossa turma teve a felicidade de conhecer o professor Otávio Augusto, homem sério, distinto e visivelmente culto e vaidoso. Mas vaidoso de uma vaidade saudável, do tipo de gente que se cuida, sempre de terno estiloso e óculos impecavelmente limpos.
Trouxe um certo temor nas primeiras aulas, com seu ar sério e seu português irrepreensível, além das notícias que tivemos de que suas provas eram difíceis e de que ele seria implacável como professor. Mas logo essa imagem equivocada se desfez, e o professor Otávio se mostrou acessível e descontraído em vários momentos.
Bem, mas para que não me compreendam mal, às vésperas que estamos da última prova de processo civil, minha intenção com este texto não é a bajulação, mas tão somente comentar um pouco do que aconteceu ontem em nossa última aula e da inspiração que ela me trouxe.
Discutíamos Recurso Extraordinário e Recurso Especial. Já no final da aula, nas considerações derradeiras, surgiu (não me lembro bem de onde), um comentário acerca das missivas que já não se mandam mais. O professor Otávio bem disse que nos tempos modernos já não se escrevem mais cartas aqueles que se encontram enamorados, a internet acabou com todo o romantismo, a tecnologia fez com que muita coisa perdesse a graça.
Minha colega Thiara, que se casa em janeiro, foi indagada pelo professor, sobre o seu noivo, se por acaso ela lhe escrevera cartas românticas, já que é sabido de todos que William não reside em Montes Claros. Ela logo respondeu, romanticíssima que é, que é claro que já se comunicou com ele através das cartas, que demoravam cerca de cinco dias para chegarem até a Bahia, local onde ele se encontra fazendo mestrado.
Bem, aproveitando a deixa o professor logo emendou brincando que por se tratar da Bahia, somente por carta mesmo... Mas continuou emendando com uma seriedade invejável e uma inspiração fantástica: "Quando não há espaço entre o desejo e a satisfação, não há tempo para os sentimentos brotarem."
Eis o ponto culminante no qual me apeguei para esta crônica. A frase do professor foi ainda comentada por alguns instantes enquanto eu refletia acerca de sua profundidade. Cecília, amiga e parceira de todos os momentos, notando meu mergulho nas ideias foi logo sugerindo: escreva uma crônica. Eu, como muitos já sabem, costumo atender a esse tipo de pedido. Cá estou tentando fazê-lo.
Pensar que deve haver espaço entre o desejo e a satisfação é pensar em como Ismália quis a lua, levada pela loucura de amor, que morre de amor pensando alcançá-lo.
É pensar em como Aída quis Radamés e foi desejada por ele, morrendo ambos de amor, de um amor que não teve tempo de ser vivido.
É também pensar em como Elis amou a música, mais do que aos filhos e no tempo curto que teve para viver e amar.
Assim só posso pensar que o tempo está para o amor, como bem cantou Caetano em sua Oração ao Tempo, pois é o tempo o melhor "compositor de destinos" de que se tem notícias.
E sim, desejo prontamente satisfeito não tem o mesmo "tempero" de um desejo esperado, almejado, aguardado. Para tanto, que bom seria se voltássemos às tradicionais missivas, eu mesma já escrevi dezenas, centenas delas e tenho um baú lotado de cartas que recebi dos amigos e do marido também nos tempos de namoro. Por que não?
Claro que "Todas as cartas de amor são ridículas" como escreveu Álvaro de Campos, mas não é por acaso que ele mesmo concluiu que só quem nunca escreveu uma carta de amor é que é, de fato, ridículo.
E para que os sentimentos brotem, nada como ser ridículo com as palavras, nada mais salutar. Pequenas doses de desejo satisfeito são como pequenas gotas de mel, deliciosas e doces. Desejo prontamente satisfeito é como o mel que transborda e enjoa.
03/12/2011
Quem imagina que aula de direito é só teoria e pouco ou nenhum romantismo se engana. No quinto período de Direito, nossa turma teve a felicidade de conhecer o professor Otávio Augusto, homem sério, distinto e visivelmente culto e vaidoso. Mas vaidoso de uma vaidade saudável, do tipo de gente que se cuida, sempre de terno estiloso e óculos impecavelmente limpos.
Trouxe um certo temor nas primeiras aulas, com seu ar sério e seu português irrepreensível, além das notícias que tivemos de que suas provas eram difíceis e de que ele seria implacável como professor. Mas logo essa imagem equivocada se desfez, e o professor Otávio se mostrou acessível e descontraído em vários momentos.
Bem, mas para que não me compreendam mal, às vésperas que estamos da última prova de processo civil, minha intenção com este texto não é a bajulação, mas tão somente comentar um pouco do que aconteceu ontem em nossa última aula e da inspiração que ela me trouxe.
Discutíamos Recurso Extraordinário e Recurso Especial. Já no final da aula, nas considerações derradeiras, surgiu (não me lembro bem de onde), um comentário acerca das missivas que já não se mandam mais. O professor Otávio bem disse que nos tempos modernos já não se escrevem mais cartas aqueles que se encontram enamorados, a internet acabou com todo o romantismo, a tecnologia fez com que muita coisa perdesse a graça.
Minha colega Thiara, que se casa em janeiro, foi indagada pelo professor, sobre o seu noivo, se por acaso ela lhe escrevera cartas românticas, já que é sabido de todos que William não reside em Montes Claros. Ela logo respondeu, romanticíssima que é, que é claro que já se comunicou com ele através das cartas, que demoravam cerca de cinco dias para chegarem até a Bahia, local onde ele se encontra fazendo mestrado.
Bem, aproveitando a deixa o professor logo emendou brincando que por se tratar da Bahia, somente por carta mesmo... Mas continuou emendando com uma seriedade invejável e uma inspiração fantástica: "Quando não há espaço entre o desejo e a satisfação, não há tempo para os sentimentos brotarem."
Eis o ponto culminante no qual me apeguei para esta crônica. A frase do professor foi ainda comentada por alguns instantes enquanto eu refletia acerca de sua profundidade. Cecília, amiga e parceira de todos os momentos, notando meu mergulho nas ideias foi logo sugerindo: escreva uma crônica. Eu, como muitos já sabem, costumo atender a esse tipo de pedido. Cá estou tentando fazê-lo.
Pensar que deve haver espaço entre o desejo e a satisfação é pensar em como Ismália quis a lua, levada pela loucura de amor, que morre de amor pensando alcançá-lo.
É pensar em como Aída quis Radamés e foi desejada por ele, morrendo ambos de amor, de um amor que não teve tempo de ser vivido.
É também pensar em como Elis amou a música, mais do que aos filhos e no tempo curto que teve para viver e amar.
Assim só posso pensar que o tempo está para o amor, como bem cantou Caetano em sua Oração ao Tempo, pois é o tempo o melhor "compositor de destinos" de que se tem notícias.
E sim, desejo prontamente satisfeito não tem o mesmo "tempero" de um desejo esperado, almejado, aguardado. Para tanto, que bom seria se voltássemos às tradicionais missivas, eu mesma já escrevi dezenas, centenas delas e tenho um baú lotado de cartas que recebi dos amigos e do marido também nos tempos de namoro. Por que não?
Claro que "Todas as cartas de amor são ridículas" como escreveu Álvaro de Campos, mas não é por acaso que ele mesmo concluiu que só quem nunca escreveu uma carta de amor é que é, de fato, ridículo.
E para que os sentimentos brotem, nada como ser ridículo com as palavras, nada mais salutar. Pequenas doses de desejo satisfeito são como pequenas gotas de mel, deliciosas e doces. Desejo prontamente satisfeito é como o mel que transborda e enjoa.
03/12/2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Riqueza
Obrigada aos 53 amigos que vieram à nossa casa no último dia 26/11 para o chá de bebê do Vinícius...
Me senti rica, milionária por contar com tanta gente especial perto de mim!
Foi lindo! Foi maravilhoso!
Estou imensamente feliz e grata a Deus por ter tantos amigos!
Sei que muita gente não veio em razão do tempo, outros por compromissos anteriores, mesmo assim, sinto-me abraçada por todos e o Vinícius já sabe o quanto é bem-vindo e amado!
Obrigada mais uma vez!
Cyntia, Beto, Samuel e Vinícius.
Me senti rica, milionária por contar com tanta gente especial perto de mim!
Foi lindo! Foi maravilhoso!
Estou imensamente feliz e grata a Deus por ter tantos amigos!
Sei que muita gente não veio em razão do tempo, outros por compromissos anteriores, mesmo assim, sinto-me abraçada por todos e o Vinícius já sabe o quanto é bem-vindo e amado!
Obrigada mais uma vez!
Cyntia, Beto, Samuel e Vinícius.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
O anjinho peralta
Cyntia Pinheiro
Lá no céu havia uma escola de anjinhos, meninos-aprendizes de todos os tamanhos, desde bebês-anjinhos até mocinhas e rapazinhos angelicais. Anjinhos de cabelos cacheados, de cabelinhos lisos e crespos. Anjinhos negros, loirinhos e de olhinhos puxados também.
Em uma linda manhã de sol, o anjinho Astolfo, que era o mais peralta dos meninos-anjo de sua idade, pulava de nuvem em nuvem, sentindo em seu rostinho rosado a brisa cariciosa e os raiozinhos de sol que lhe tocavam delicadamente a testa. Sabia que o Papai do Céu estava de olhos bem abertos, prestando atenção em tudo o que ele fazia. De repente, um trovão estrondou bem forte, quase derrubando o anjinho pulador, que foi logo reclamando:
- Mas que coisa mais desagradável! Será que eu poderia brincar sem levar sustos? Quem foi o anjinho levado que ligou o som a essa altura aqui no céu?
Para a surpresa do anjinho Astolfo a resposta veio como um trovão ainda mais forte, era o Papai do Céu que lhe falava:
- Anjinho lindo que tanto amo, você que é tão corajoso, que se equilibra nessas nuvens como nenhum outro anjinho sabe fazer, você que tem tanta energia angelical, que já aprendeu tanta coisa aqui no céu, chegou a hora de ganhar uma missão especial.
Claro que o anjinho ficou bem assustado, pois não era todo dia que se ouvia assim tão forte a voz do Papai do Céu, afinal Ele estava sempre de olho em todo mundo, cuidando de tudo, mas Deus prefere falar baixinho, no silêncio do coração das pessoas, na verdade Ele sabe que tem uma voz muito poderosa, por isso prefere ouvir mais e falar menos. Obediente que era, apesar das peraltices, Astolfo estava disposto a agradar ao Senhor, e respondeu com alegria:
- Sim, meu Deus! Estou prontinho para qualquer trabalho que o Senhor me confiar.
Deus então respondeu:
- Sua missão será na terra, alegrando as criancinhas. Você aceita?
Astolfo nem pestanejou e disse iluminado pela sua linda auréola que reluzia tanto quanto seus olhinhos emocionados:
- Claro, meu papaizinho, eu aceito.
Mal Astolfo respondeu àquela pergunta e sentiu imediatamente seu corpinho escorregando pelas nuvens branquinhas. Ele foi descendo como uma pluma, caindo devagarinho, e enquanto apreciava a vista linda lá do alto, pensava em como seria o lugar para onde Deus o estava levando... Confiava tanto no Criador que não teve medo nenhum. Algum tempo depois acordou sem suas asinhas, sem sua auréola dourada, com a pele um pouco mais bronzeada e cabelos como de menino da terra. Ele estava deitado num campo verdinho, à sombra de uma árvore frondosa. Vestido como um menino normal, ele olhou à sua volta buscando saber que lugar era aquele onde estava, foi quando ao longe ele avistou alguma coisa muito colorida que se sacudia fortemente ao vento. Não teve dúvidas, era um circo. Aproximou-se lentamente, até encontrar a porta principal, e foi entrando sem ser incomodado.
- Olá - gritou o menino-anjo - tem alguém aí?
Mas ninguém respondeu. Astolfo então foi entrando e ficou admirado com tudo o que via, o picadeiro era enorme, cheio de coisas grandes e coloridas, no alto haviam trapézios de uma altura impressionante e também pôde notar uma corda-bamba que atravessava o circo inteiro. Astolfo estava encantado... foi aproximando-se como que fascinado e começou a mexer em tudo o que via. Subiu no trampolim, deu piruetas no meio do picadeiro, fez estrelinhas, criou coragem e foi até lá no alto, pendurou-se no trapézio de ponta-cabeça, girou no ar, andou na corda bamba e quando se preparava para descer da sua aventura circense foi surpreendido com alguns poucos aplausos de uma plateia bem especial.
(palmas)
- Bravo! - Gritou o palhaço Cascatinha.
- Genial! - Bradou o mágico do circo.
- Quanta habilidade! Estou impressionada! - Disse a mulher barbada.
Astolfo não estava entendendo nada. Então pediu desculpas:
- Pessoal, eu não sabia que vocês estavam aí. Me desculpem por invadir assim o circo de vocês, é que eu fiquei...
Mas antes que Astolfo completasse a frase foi interrompido por Cascatinha:
- O que há garotinho? Nós adoramos assistí-lo. Onde foi que você aprendeu tanta coisa assim? Você é artista de circo?
- N-n-não... eu...
- Não importa - disse a mulher barbada - o importante é que você chegou aqui na hora certa, foi Deus quem te enviou menininho. Quer trabalhar conosco?
Quando ouviu aquelas palavras o menino-anjo não teve dúvidas, sabia que tinha ido parar ali a mando mesmo do Papai do Céu, então não havia porque recusar àquele convite tentador.
- Está bem. Eu aceito.
Pegando sua cartola mágica, o mágico do circo foi logo tirando coisas lindas para presentear Astolfo. A primeira a sair foi uma roupinha toda colorida de palhaço, depois veio uma peruca toda espivitada e por último um sapato gigantão desses que palhaço usa. Astolfo ficou muito feliz, mas não deixou de perceber o olhar triste do palhaço Cascatinha.
- O que foi Cascatinha, você não está feliz? - perguntou o anjinho.
- Não, é que... bem... eu... é que essas coisas eram do meu filho, o palhacinho bolotinha e... é que me deu uma saudade danada dos tempos em que ele podia usar todas essas coisinhas lindas...
- E por que ele não pode mais usá-las? - indagou o curioso anjinho.
Cascatinha começou a chorar. Então a mulher barbada explicou:
- Olha menino, é que o Bolotinha acidentou-se aqui no circo e agora não pode mais fazer graça, o circo já não é mais o mesmo sem ele. Precisávamos mesmo de um substituto, porque as crianças que vêm aqui adoravam vê-lo em cena. Já faz um tempão que ele está deitadinho na cama, triste, amuado, desanimado da vida, e não temos mais esperanças de que ele volte ao picadeiro.
- Nossa! Que coisa triste. Gostaria muito de conhecê-lo.
- Você irá conhecê-lo na hora certa - disse o mágico - agora vamos preparar a apresentação de logo mais.
Então foram surgindo por trás das cortinas pesadas vários personagens interessantes do circo, o malabarista com suas bolinhas encantadas que jamais caiam, a contorcionista que cabia numa caixinha pequenininha, o trapezista com músculos de aço pendurava-se de ponta-cabeça, girava e saltava no ar, o mágico tirava coelhos lindos de sua cartola, a mulher barbada girava no ar pendurada por malhas coloridas, o palhaço Cascatinha arrancava risadas de todos ali presentes. E o nosso pequeno Astolfo ficou encantado pela atmosfera maravilhosa do circo, inebriado com tanta beleza, tantas cores e tanta alegria, ganhou o apelido carinhoso de palhaço Fumacinha e ficou decidido que participaria de vários quadros, penduraria-se no trapézio, andaria na corda-bamba que era sua especialidade, faria graça junto com o palhaço Cascatinha e até sairira de dentro da cartola do mágico em um número novo que eles inventaram só pra ele. Tudo parecia perfeito, até que Fumacinha percebeu uma sombra que espiava por traz da lona, um olhinho triste que acompanhava todo o ensaio, não teve dúvidas, era o palhaço Bolotinha e correu até lá:
- Bolotinha!
O palhacinho doente levou um susto, não esperava ser encontrado ali no seu esconderijo:
- Q-quem é você? - perguntou intrigado.
- Sou o palhaço Fumacinha e vim para...
- Não precisa me dizer... eu já sei, você veio para ficar no meu lugar, eu sei que não sirvo pra nada mais... depois que caí do trampolim, meus pezinhos ficaram tortos e já não posso mais andar direito, também estou bem doente, tenho febre e muita tristeza...
- Ei, espere Bolotinha, você não pode ficar revoltado assim, pois existe um Deus tão grande e tão bonito cuidando de você.
Bolotinha revoltado respondeu:
- Então porque Ele mandou você em vez de cuidar de mim?
- Mas ele cuida, amiguinho. Confie n´Ele. Me conte uma coisa: o que eu poderia fazer para te deixar feliz, Bolotinha? Quero ser seu amigo, quero que você confie em mim.
- Ah! Ninguém pode me fazer feliz, a única coisa que me deixaria realmente feliz seria voltar ao picadeiro, voltar a ser o palhaço Bolotinha de antes...
E Bolotinha saiu chateado com aquela conversa. Mas Fumacinha, nosso anjinho Astolfo, já tinha um plano.
Quando a noite chegou, o público lotou o auditório do circo, muitas crianças vinham de várias localidades para conhecer o novo palhacinho. As luzes finalmente se acenderam e o espetáculo começou com muita alegria. Era possível notar a felicidade das crianças encantadas com tanta arte e beleza. Fumacinha foi a principal atração da noite. Para a surpresa geral, no número mais difícil que apresentaria, nosso anjinho pediu para falar ao microfone, e deixou a plateia e os amigos do circo ainda mais intrigados quando disse com voz confiante:
- Convido aqui o meu amigo, o melhor palhaço que já houve nesse circo, o mais esperto, o mais inteligente e bonito, o palhaço Bolotinha para andar comigo na corda-bamba.
Ouviu-se um longo "Ohhhhhhhh" por parte dos presentes. Todos sabiam que Bolotinha não conseguiria, como poderia andar na corda-bamba com seus pezinhos tortos? E fraquinho como ele estava, não seria capaz. O mágico tentou impedir a loucura, mas Cascatinha, confiando em Deus deixou seu filhinho subir.
A plateia ficou enlouquecida, entre preocupados e confiantes, aplaudiam com entusiasmo o pequeno Bolotinha. E agora era possível perceber um brilho diferente em seu olhar, ele estava encantado e realmente feliz de estar ali, sentia-se útil e importante novamente. De mãos dadas com nosso anjinho Astolfo se deixou levar confiante pela corda-bamba que balançava calmamente sentindo o peso dos dois novos amigos. Bolotinha sorria muito, não cabia em si de tanta felicidade. De repente, algo inesperado aconteceu, a corda começou a sacudir rapidamente e os dois corriam o risco de cair lá do alto. Foi quando Bolotinha fechou os olhos e disse para Astolfo:
- Estou pronto, amiguinho!
E como mágica duas asas gigantes brotaram nas costas de Astolfo e a mesma coisa aconteceu com o palhaço Bolotinha, duas asas imensas sairam de suas costas e quando começaram a cair da corda-bamba, bateram suas asas lindas e passaram a sobrevoar a plateia emocionada com tanta beleza. Aquela foi a noite mais especial e linda que o circo jamais viu. Fumacinha e Bolotinha voltaram a ser anjinhos de Deus, e voaram para fazer suas traquinagem e malabarismos lá no céu, felizes e agradecidos ao grande Criador que os deu a chance de alegrar muitas crianças aqui na terra.
Lá no céu havia uma escola de anjinhos, meninos-aprendizes de todos os tamanhos, desde bebês-anjinhos até mocinhas e rapazinhos angelicais. Anjinhos de cabelos cacheados, de cabelinhos lisos e crespos. Anjinhos negros, loirinhos e de olhinhos puxados também.
Em uma linda manhã de sol, o anjinho Astolfo, que era o mais peralta dos meninos-anjo de sua idade, pulava de nuvem em nuvem, sentindo em seu rostinho rosado a brisa cariciosa e os raiozinhos de sol que lhe tocavam delicadamente a testa. Sabia que o Papai do Céu estava de olhos bem abertos, prestando atenção em tudo o que ele fazia. De repente, um trovão estrondou bem forte, quase derrubando o anjinho pulador, que foi logo reclamando:
- Mas que coisa mais desagradável! Será que eu poderia brincar sem levar sustos? Quem foi o anjinho levado que ligou o som a essa altura aqui no céu?
Para a surpresa do anjinho Astolfo a resposta veio como um trovão ainda mais forte, era o Papai do Céu que lhe falava:
- Anjinho lindo que tanto amo, você que é tão corajoso, que se equilibra nessas nuvens como nenhum outro anjinho sabe fazer, você que tem tanta energia angelical, que já aprendeu tanta coisa aqui no céu, chegou a hora de ganhar uma missão especial.
Claro que o anjinho ficou bem assustado, pois não era todo dia que se ouvia assim tão forte a voz do Papai do Céu, afinal Ele estava sempre de olho em todo mundo, cuidando de tudo, mas Deus prefere falar baixinho, no silêncio do coração das pessoas, na verdade Ele sabe que tem uma voz muito poderosa, por isso prefere ouvir mais e falar menos. Obediente que era, apesar das peraltices, Astolfo estava disposto a agradar ao Senhor, e respondeu com alegria:
- Sim, meu Deus! Estou prontinho para qualquer trabalho que o Senhor me confiar.
Deus então respondeu:
- Sua missão será na terra, alegrando as criancinhas. Você aceita?
Astolfo nem pestanejou e disse iluminado pela sua linda auréola que reluzia tanto quanto seus olhinhos emocionados:
- Claro, meu papaizinho, eu aceito.
Mal Astolfo respondeu àquela pergunta e sentiu imediatamente seu corpinho escorregando pelas nuvens branquinhas. Ele foi descendo como uma pluma, caindo devagarinho, e enquanto apreciava a vista linda lá do alto, pensava em como seria o lugar para onde Deus o estava levando... Confiava tanto no Criador que não teve medo nenhum. Algum tempo depois acordou sem suas asinhas, sem sua auréola dourada, com a pele um pouco mais bronzeada e cabelos como de menino da terra. Ele estava deitado num campo verdinho, à sombra de uma árvore frondosa. Vestido como um menino normal, ele olhou à sua volta buscando saber que lugar era aquele onde estava, foi quando ao longe ele avistou alguma coisa muito colorida que se sacudia fortemente ao vento. Não teve dúvidas, era um circo. Aproximou-se lentamente, até encontrar a porta principal, e foi entrando sem ser incomodado.
- Olá - gritou o menino-anjo - tem alguém aí?
Mas ninguém respondeu. Astolfo então foi entrando e ficou admirado com tudo o que via, o picadeiro era enorme, cheio de coisas grandes e coloridas, no alto haviam trapézios de uma altura impressionante e também pôde notar uma corda-bamba que atravessava o circo inteiro. Astolfo estava encantado... foi aproximando-se como que fascinado e começou a mexer em tudo o que via. Subiu no trampolim, deu piruetas no meio do picadeiro, fez estrelinhas, criou coragem e foi até lá no alto, pendurou-se no trapézio de ponta-cabeça, girou no ar, andou na corda bamba e quando se preparava para descer da sua aventura circense foi surpreendido com alguns poucos aplausos de uma plateia bem especial.
(palmas)
- Bravo! - Gritou o palhaço Cascatinha.
- Genial! - Bradou o mágico do circo.
- Quanta habilidade! Estou impressionada! - Disse a mulher barbada.
Astolfo não estava entendendo nada. Então pediu desculpas:
- Pessoal, eu não sabia que vocês estavam aí. Me desculpem por invadir assim o circo de vocês, é que eu fiquei...
Mas antes que Astolfo completasse a frase foi interrompido por Cascatinha:
- O que há garotinho? Nós adoramos assistí-lo. Onde foi que você aprendeu tanta coisa assim? Você é artista de circo?
- N-n-não... eu...
- Não importa - disse a mulher barbada - o importante é que você chegou aqui na hora certa, foi Deus quem te enviou menininho. Quer trabalhar conosco?
Quando ouviu aquelas palavras o menino-anjo não teve dúvidas, sabia que tinha ido parar ali a mando mesmo do Papai do Céu, então não havia porque recusar àquele convite tentador.
- Está bem. Eu aceito.
Pegando sua cartola mágica, o mágico do circo foi logo tirando coisas lindas para presentear Astolfo. A primeira a sair foi uma roupinha toda colorida de palhaço, depois veio uma peruca toda espivitada e por último um sapato gigantão desses que palhaço usa. Astolfo ficou muito feliz, mas não deixou de perceber o olhar triste do palhaço Cascatinha.
- O que foi Cascatinha, você não está feliz? - perguntou o anjinho.
- Não, é que... bem... eu... é que essas coisas eram do meu filho, o palhacinho bolotinha e... é que me deu uma saudade danada dos tempos em que ele podia usar todas essas coisinhas lindas...
- E por que ele não pode mais usá-las? - indagou o curioso anjinho.
Cascatinha começou a chorar. Então a mulher barbada explicou:
- Olha menino, é que o Bolotinha acidentou-se aqui no circo e agora não pode mais fazer graça, o circo já não é mais o mesmo sem ele. Precisávamos mesmo de um substituto, porque as crianças que vêm aqui adoravam vê-lo em cena. Já faz um tempão que ele está deitadinho na cama, triste, amuado, desanimado da vida, e não temos mais esperanças de que ele volte ao picadeiro.
- Nossa! Que coisa triste. Gostaria muito de conhecê-lo.
- Você irá conhecê-lo na hora certa - disse o mágico - agora vamos preparar a apresentação de logo mais.
Então foram surgindo por trás das cortinas pesadas vários personagens interessantes do circo, o malabarista com suas bolinhas encantadas que jamais caiam, a contorcionista que cabia numa caixinha pequenininha, o trapezista com músculos de aço pendurava-se de ponta-cabeça, girava e saltava no ar, o mágico tirava coelhos lindos de sua cartola, a mulher barbada girava no ar pendurada por malhas coloridas, o palhaço Cascatinha arrancava risadas de todos ali presentes. E o nosso pequeno Astolfo ficou encantado pela atmosfera maravilhosa do circo, inebriado com tanta beleza, tantas cores e tanta alegria, ganhou o apelido carinhoso de palhaço Fumacinha e ficou decidido que participaria de vários quadros, penduraria-se no trapézio, andaria na corda-bamba que era sua especialidade, faria graça junto com o palhaço Cascatinha e até sairira de dentro da cartola do mágico em um número novo que eles inventaram só pra ele. Tudo parecia perfeito, até que Fumacinha percebeu uma sombra que espiava por traz da lona, um olhinho triste que acompanhava todo o ensaio, não teve dúvidas, era o palhaço Bolotinha e correu até lá:
- Bolotinha!
O palhacinho doente levou um susto, não esperava ser encontrado ali no seu esconderijo:
- Q-quem é você? - perguntou intrigado.
- Sou o palhaço Fumacinha e vim para...
- Não precisa me dizer... eu já sei, você veio para ficar no meu lugar, eu sei que não sirvo pra nada mais... depois que caí do trampolim, meus pezinhos ficaram tortos e já não posso mais andar direito, também estou bem doente, tenho febre e muita tristeza...
- Ei, espere Bolotinha, você não pode ficar revoltado assim, pois existe um Deus tão grande e tão bonito cuidando de você.
Bolotinha revoltado respondeu:
- Então porque Ele mandou você em vez de cuidar de mim?
- Mas ele cuida, amiguinho. Confie n´Ele. Me conte uma coisa: o que eu poderia fazer para te deixar feliz, Bolotinha? Quero ser seu amigo, quero que você confie em mim.
- Ah! Ninguém pode me fazer feliz, a única coisa que me deixaria realmente feliz seria voltar ao picadeiro, voltar a ser o palhaço Bolotinha de antes...
E Bolotinha saiu chateado com aquela conversa. Mas Fumacinha, nosso anjinho Astolfo, já tinha um plano.
Quando a noite chegou, o público lotou o auditório do circo, muitas crianças vinham de várias localidades para conhecer o novo palhacinho. As luzes finalmente se acenderam e o espetáculo começou com muita alegria. Era possível notar a felicidade das crianças encantadas com tanta arte e beleza. Fumacinha foi a principal atração da noite. Para a surpresa geral, no número mais difícil que apresentaria, nosso anjinho pediu para falar ao microfone, e deixou a plateia e os amigos do circo ainda mais intrigados quando disse com voz confiante:
- Convido aqui o meu amigo, o melhor palhaço que já houve nesse circo, o mais esperto, o mais inteligente e bonito, o palhaço Bolotinha para andar comigo na corda-bamba.
Ouviu-se um longo "Ohhhhhhhh" por parte dos presentes. Todos sabiam que Bolotinha não conseguiria, como poderia andar na corda-bamba com seus pezinhos tortos? E fraquinho como ele estava, não seria capaz. O mágico tentou impedir a loucura, mas Cascatinha, confiando em Deus deixou seu filhinho subir.
A plateia ficou enlouquecida, entre preocupados e confiantes, aplaudiam com entusiasmo o pequeno Bolotinha. E agora era possível perceber um brilho diferente em seu olhar, ele estava encantado e realmente feliz de estar ali, sentia-se útil e importante novamente. De mãos dadas com nosso anjinho Astolfo se deixou levar confiante pela corda-bamba que balançava calmamente sentindo o peso dos dois novos amigos. Bolotinha sorria muito, não cabia em si de tanta felicidade. De repente, algo inesperado aconteceu, a corda começou a sacudir rapidamente e os dois corriam o risco de cair lá do alto. Foi quando Bolotinha fechou os olhos e disse para Astolfo:
- Estou pronto, amiguinho!
E como mágica duas asas gigantes brotaram nas costas de Astolfo e a mesma coisa aconteceu com o palhaço Bolotinha, duas asas imensas sairam de suas costas e quando começaram a cair da corda-bamba, bateram suas asas lindas e passaram a sobrevoar a plateia emocionada com tanta beleza. Aquela foi a noite mais especial e linda que o circo jamais viu. Fumacinha e Bolotinha voltaram a ser anjinhos de Deus, e voaram para fazer suas traquinagem e malabarismos lá no céu, felizes e agradecidos ao grande Criador que os deu a chance de alegrar muitas crianças aqui na terra.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Vida errante
Cyntia Pinheiro
Ontem, depois de quatro meses morando do outro lado da cidade, errei pela primeira vez o caminho de volta para casa. Só notei o tamanho da volta que eu havia dado quando, já chegando no apartamento em que vivemos por felizes sete anos, é que Samuel me acordou:
- Mãe, onde você tá indo?
Ops, era tarde. Agora teria que completar a volta na avenida toda pra retornar lá na frente e tomar o trajeto correto, rumo à "casa nova".
No caminho de volta, entre debochada e estupefata eu ria com o meu pequenino, achando graça da minha distração, mas enquanto isso, lá no fundo eu refletia sobre as voltas que a vida dá, ou as voltas que a gente dá na vida.
É bem conhecida a passagem bíblica em que Jesus, acolhendo Maria Madalena, profere as sábias palavras: "Atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado". Quem nesse mundo é capaz de dizer que jamais cometeu algum engano?
Eu erro muito. Erro o tempo inteiro. Mas trago no peito uma certeza tão plena quanto aquela de quando eu dirigia para o antigo apartamento: eu erro querendo acertar. E trazendo isso para a linguagem do Direito: erro culposamente, sem dolo.
Penso que ninguém erra por dolo, mas descubro um segundo depois que não é bem assim, tal pensamento por si só consiste em um erro. Há pessoas nesse mundo que são mal intencionadas, cometem erro com total responsabilidade sobre ele, plenamente lúcidos do que fazem e sem o menor escrúpulo nem impulso inibidor.
Não é o meu caso. Definitivamente não é. Digo isso com toda a pureza do meu coração. Falho porque sou humana, cheia de defeitos, mas não tenho "aquela" maldade de fazer algo para prejudicar alguém ao bel prazer...
Em meus devaneios na volta para casa fiquei pensando ainda sobre a situação do planeta em que vivemos, da forma como vivemos e cheguei à conclusão de que deve existir nesse universo tão grande algum lugar melhor do que esse aqui. Onde os habitantes não careçam de armas para se defender, não precisem de muros para se esconder, não precisem de mentiras para vencer, não precisem se agredir.
Enfim, não havendo muito o que fazer por hora, vou continuar o meu caminho errando, falhando - especialmente com quem amo - mas querendo acertar a cada dia para um dia merecer um lugar melhor no futuro, onde eu não erre mais.
Ontem, depois de quatro meses morando do outro lado da cidade, errei pela primeira vez o caminho de volta para casa. Só notei o tamanho da volta que eu havia dado quando, já chegando no apartamento em que vivemos por felizes sete anos, é que Samuel me acordou:
- Mãe, onde você tá indo?
Ops, era tarde. Agora teria que completar a volta na avenida toda pra retornar lá na frente e tomar o trajeto correto, rumo à "casa nova".
No caminho de volta, entre debochada e estupefata eu ria com o meu pequenino, achando graça da minha distração, mas enquanto isso, lá no fundo eu refletia sobre as voltas que a vida dá, ou as voltas que a gente dá na vida.
É bem conhecida a passagem bíblica em que Jesus, acolhendo Maria Madalena, profere as sábias palavras: "Atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado". Quem nesse mundo é capaz de dizer que jamais cometeu algum engano?
Eu erro muito. Erro o tempo inteiro. Mas trago no peito uma certeza tão plena quanto aquela de quando eu dirigia para o antigo apartamento: eu erro querendo acertar. E trazendo isso para a linguagem do Direito: erro culposamente, sem dolo.
Penso que ninguém erra por dolo, mas descubro um segundo depois que não é bem assim, tal pensamento por si só consiste em um erro. Há pessoas nesse mundo que são mal intencionadas, cometem erro com total responsabilidade sobre ele, plenamente lúcidos do que fazem e sem o menor escrúpulo nem impulso inibidor.
Não é o meu caso. Definitivamente não é. Digo isso com toda a pureza do meu coração. Falho porque sou humana, cheia de defeitos, mas não tenho "aquela" maldade de fazer algo para prejudicar alguém ao bel prazer...
Em meus devaneios na volta para casa fiquei pensando ainda sobre a situação do planeta em que vivemos, da forma como vivemos e cheguei à conclusão de que deve existir nesse universo tão grande algum lugar melhor do que esse aqui. Onde os habitantes não careçam de armas para se defender, não precisem de muros para se esconder, não precisem de mentiras para vencer, não precisem se agredir.
Enfim, não havendo muito o que fazer por hora, vou continuar o meu caminho errando, falhando - especialmente com quem amo - mas querendo acertar a cada dia para um dia merecer um lugar melhor no futuro, onde eu não erre mais.
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