quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Game Over


Cyntia Pinheiro (em catarse)



Há tempos não me levanto a noite apenas para escrever. Hoje nem me deitei, um desconforto grande me doía fisicamente o coração, eu precisava expressar.

Todos os dias convivo com mais de uma centena de pessoas no plano físico e milhares no plano virtual. Nessa perspectiva é absolutamente aceitável lidar com opiniões diversificadas sobre todo e qualquer assunto, até mesmo política, esporte e religião, assuntos esses considerados indiscutíveis.

Ultimamente, de modo especial, tenho lidado com pensamentos bastante contraditórios em relação às muitas religiões. Hoje, com certa perplexidade, me vi diante de duas posições extremadas e totalmente desconfortáveis, a fé cega e o completo ateísmo. Ambos os temas me desconcertaram a ponto de gerar uma angústia e um incontrolável desejo de me expressar, pois não sou do tipo que guarda as coisas, sou do tipo que se livra das dores e dos problemas, não quero somatizar, sobretudo as opiniões alheias.

Primeiro ponto a esclarecer, não carrego bandeira religiosa, já estive em muitos lugares, aprendi a respeitar as diferenças. E essa falta de respeito é que me dói. Para exemplificar, me adoece ver gente negra sendo maltratada sem pleno século XXI, como também me entristece necessitar de cuidados para me referir à pessoa negra, como se chamar de “negão” fosse uma ofensa, como se dizer “aquela moça negra” fosse uma crueldade. Não gosto de ter que dizer “a moreninha”, o rapaz “moreno”. É negro, pronto e acabou. Sem melindres, sem problemas, sem neuras!

Devemos aceitar todas as riquíssimas contribuições, sobretudo musicais, que os africanos nos legaram, pelo ritmo que lhes é peculiar e de onde vem o samba, o maracatu, o “negro spiritual”, o jazz, o soul, dentre outros belíssimos estilos. Por que não podemos aceitar que TODOS somos negões? Miscigenados, porém paridos da mesma cultura africana de onde vieram os escravos...

E a religiosidade negra não deve ser para nós motivo de repulsa. Todos somos  gente e cada pessoa tem o direito de exercer a sua crença e a sua fé como lhe aprouver. Enquanto a fé do outro afetar a minha fé, não há que se falar em Estado Laico, mas em Estado Hipócrita.

Ser ateu também é um direito do ser. Direito de ser e de não ser parte. Liberdade de escolha, somente. E o ateísmo também é digno de respeito, já tive conversas extremamente proveitosas e inteligentes com pessoas declaradamente ateias, cuja conduta social é a melhor possível, irrepreensíveis no modo de vida. O que não aceito e jamais vou aceitar, seja de qual lado for, é a intolerância.

Não importa qual seja o lado, se você acredita em Deus, Jesus, Buda, Maria, Kardek, Maomé, Sheeva, Ganesh, ou se prefere o niilismo. Se segue o Alcorão, a Bíblia, o Evangelho segundo o espiritismo, o Mahabarata, Ramayana, Vedas, Torá, Cabala, ou prefere Nietzche, pouco importa.  Se você é católico, protestante, wiccan, judeu, xintoísta, hindu, muçulmano, islamista, kardecista, budista, ou se é ateu. Tanto faz!!!! Tanto faz mesmo!!! Conviva em paz, porque fundamentalismos destroem o mundo!

Meu doeu ouvir de alguém algo do tipo “quem não crê já está condenado ao inferno”, mas também me doeu ler na internet que quem acredita em Deus é” idiota alienado” (pegando a frase mais cortês que havia na página)!

Tanta certeza, tanta convicção. Quem está certo, afinal? Um destino eu garanto que todos temos, o túmulo. Daí por diante só temos fé, ou a falta dela.

E enquanto pessoas que professam alguma fé continuarem atacando a fé alheia ou sua ausência, enquanto algum homem “branco” continuar se achando superior ao negro, enquanto o ateu se achar no direito de fazer charge, estatueta, comentários desrespeitosos quanto à crença dos outros, enquanto existir fundamentalismos, certezas absolutas e irrefutáveis, todos seremos algozes e vítimas das nossas próprias vaidades.

Tem mais, enquanto as maiorias continuarem a oprimir as minorias e enquanto as minorias tentarem conquistar espaço agredindo a maioria, já era! Isso nunca vai dar certo.

Esse mundo já acabou! Para mim, é game over!

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Ao "marinado"

Cyntia Pinheiro


Construí o amor que eu quis. Foi assim.

Cozinhei em banho-maria e ele ficou no ponto.
Temperei com gentilezas mil e uma pitada de molho picante.
Misturei com uma tigela de açúcar união
E muitas doses de sorrisos e vinho tinto.
Levei ao forno com quatro rodelas de abraços quentinhos
Salpiquei mil carinhos e deixei dourar.
Servi a quatro pratos familiares
Em meio a doces olhares, suspirei de amor.
E o "marinado" se encantou por mim
E eu por ele.
Até hoje é assim!

Feliz 12 de junho, amor da minha vida!

O tempo

Passa tempo
Passo o tempo
Perco tempo
Não tenho tempo
Rico tempo
Pobre tempo

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Para Samuel

Cyntia Pinheiro


Como os adultos são chatos!

Sabe filho, talvez um dia você entenda toda essa chatice! Adulto precisa acordar cedo, trabalhar, educar os filhos e blá, blá, blá...

Sim, eu sei, isso não justifica a mamãe às vezes ficar de mau humor e algumas vezes brigar com você! Como assim, brigar com um menino tão bonzinho que só me dá alegria? Ah... como eu ando estressada, não?

Sabe o que é? Vou lhe contar um segredo, mas peço a você que não o conte a mais ninguém, nem mesmo ao seu irmãozinho pequeno que vive me chamando de "mamãe linda" e "mamãe gostosinha"! Ah... Se ele souber a verdade, estou arruinada...

Bem, a verdade é que eu estou ficando VELHA! Mas não é velha de cara enrugada não. Velha de coração cansado. Velha de alegria, velha de humor, velha de divertida. Velha e chata! Talvez essa seja uma nova velha mamãe.

Mas não se preocupe, não pretendo morrer de velha. Aliás, pretendo sim, mas não com toda essa rabugice que só as velhas de coração cansado sentem.

O que estou tentando dizer é que com o passar do tempo a gente vai perdendo a graça, perdendo o viço e o encanto com a vida. Vai sentindo uma saudade da casa do alto, das estrelas e até do vento. E dá um medo de ir embora, mesmo sabendo que uma hora a hora vai chegar. Não é um medo de ir, é um medo de deixar vocês para trás. Ou um medo de vocês irem primeiro que eu. Isso eu não conseguiria nunquinha aguentar.

Bom, mas nada disso explica o meu mau humor, né filho? É que ele na verdade não tem nenhuma explicação lógica, a mamãe é chata porque é. Briga porque quer o bem. Reclama para lhe ajudar a ser um ser humano melhor. Pega no pé para você se tornar um homem de bem. Tudo muito contraditório, mas é assim que é. Ou não é.

Só sei que a gente fica velha, o coração fica cansado, mas o amor não envelhece nunca. Peço a você que me perdoe a gritaria que apronto as vezes porque você extrapolou o tempo no vídeo game, peço que me perdoe as broncas que dou porque você está com preguiça de fazer tarefa (coisa mais chata do mundo é fazer tarefa, né), peço perdão por magoar seu coraçãozinho tão jovem e tão cheio de amor. Queria mesmo era lhe deixar fazer o que desse na telha, mas meu juízo e minha rabugice de mãe não conseguem permitir isso. E pode acreditar, é para o seu bem!

Filho amado da minha alma, não fique triste porque só desejo o seu bem. Não fique triste porque eu gritei ou lhe coloquei de castigo, meu coração também fica cheio de dor quando preciso fazer isso, mas é pensando no seu futuro que o faço.

Você e seu irmão são as melhores partes de mim! E os amo além do que vocês possam imaginar!

Com todo amor do meu coração!

Um beijo,

Mamãe.



 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Dia de hoje

Cyntia Pinheiro


O acaso me levou a dois lugares diferentes hoje e a duas histórias dramáticas que me feriram a alma. Graças a Deus ambas com final feliz, se isso é possível.

Numa delas conheci uma mãe que passou pelo sofrimento de ver o filhinho de um 1 ter o corpo todo queimado, acompanhou o sofrimento dele no hospital, chorou lágrimas de sangue pela dor do rebentinho que hoje tem 10 anos de vida e muitas cicatrizes pelo corpo. Milagrosamente reagiu a uma infecção hospitalar e teve alta com 21 dias do incidente que o machucou severamente, enquanto os médicos previam alta somente para daí 7 meses.

A outra história de dor, foi saber de uma mãe que viu seu filho inocente ser levado preso, aos 25 anos de idade acusado de homicídio, vítima de uma armação suja e perigosa. Soube de toda a luta pra provar sua inocência, todas as etapas de uma depressão que quase a levou à cegueira, total calvície e muitas outras doenças da alma que se refletiram no corpo por tamanha dor e sofrimento.

Toda mãe é uma santa! Mesmo que não o seja em tempo integral!
Uma vez ouvi uma frase e jamais me esqueci dela: "A parte do corpo que mais dói é o filho". E é mesmo.
Qual mãe, ao ver o filho doente, não pede a Deus para estar em seu lugar?
O amor de mãe só se compara ao amor de Deus por nós, é um amor quase insano, absurdo, incomensurável.

As histórias que ouvi, por acaso, como quando você acaba de conhecer alguém ávido por um ouvido atento e você se presta a dar um pouco de atenção, me levaram a refletir no quão efêmera é a vida.
A vida escoa pelas mãos e é urgente vivê-la bem. Amanhã, ou hoje talvez, não estejamos mais aqui ou alguém que amamos talvez se vá primeiro... Estamos prontos???? Quem de nós está pronto para perder um ente querido?

Eu, definitivamente, não estou. Se for para partir, eu parto sem maiores dramas, porque a minha espiritualidade está preparada para isso, mas perder um dos meus, nem posso imaginar!

Quando se é mãe, o direito de morrer morre de parto. Ou seja, a gente não quer nem mais morrer, a gente quer viver para cuidar, para amar sem medida, para educar os rebentos e nenhuma mãe jamais cogita continuar a viver sem a presença de um filho!

Essas duas histórias que ouvi, me rasgaram a alma! Porque sou mãe e fiquei sensibilizada com cada detalhe que me foi narrado, não queria estar na pele de nenhuma delas, não desejo que ninguém perca ou veja seus filhos sofrerem, porque eles são as preciosidades da vida! São os filhos que nos elevam à presença divina, pois eles são o nosso milagre.

Deus os guarde, filhos de minha alma! Pois vocês são meus maiores tesouros.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Devaneios de uma aniversariante...

Cyntia Pinheiro



Todo mês de março é assim... Me pego refletindo sobre o tempo que já passou!

No próximo dia 13 vou completar, com a graça de Deus, 36 anos de idade. Os aniversários já não me causam frissom com antigamente, quando mais jovem, esperava ansiosamente pelo meu dia especial, pelos presentes, por alguma possível festa surpresa, hoje não, hoje só quero saúde para mim e para aqueles que amo, o resto está tudo certo.

A felicidade de fazer aniversário é saber que se eu fosse dar uma festa, teria muitos, mas muitos convidados mesmo, porque tem muita gente boa fazendo parte da minha vida e sendo especial para mim. Só que minha vida já é uma grande festa, então, diariamente eu bailo com aqueles que tenho a graça de conviver, numa música infinita e mágica, numa dança em que posso errar os passos...

Amigos, considero muitos, muito mais do que os cinco necessários para ser uma pessoa rica, e pouco importa se me consideram da mesma maneira, o amor é gratuito de minha parte, sempre será! Mas descobri que amizade verdadeira mesmo é ilusão. Amizade só existe enquanto o interesse de um não atrapalha o interesse do outro. Amizade verdadeira então, só dura enquanto seus sonhos não ofuscam os sonhos do outro. Não atrapalhou a vida do outro, tudo certo, amizade para a vida inteira. É assim que funciona a vida e isso não é ruim, é o normal! Só que ninguém (ou quase) tem coragem de escrever um texto de aniversário pra dizer.

Uma vez li uma frase da Marília Gabriela que dizia: "Eu sou muito coerente, as pessoas que eu amo, amo para sempre!" Eu jogo no time dela, não sei amar alguém hoje e odiá-la amanhã. Aliás, odiar significa o que mesmo??? Nem sei.

Mas como eu ia dizendo, uma amizade pode durar a vida inteira, eu tenho amigos desde tenra idade que caminham ao meu lado desde sempre, pessoas em quem confio e conheço bem o caráter, pessoas que defenderia até a morte se preciso fosse, mas tais pessoas não me veem todos os dias, não moram perto de mim e nem conhecem todos os meus defeitos, do contrário não sei se teriam por mim alguma consideração.

Não, querido leitor, não é um texto pessimista, é um texto realista! Eu tenho muuuuuuuitos defeitos. Me aceitar como sou nestes 36 anos que completo na quinta-feira é não me saber. Ou, me sabendo, dar conta dos meus defeitos, um a um. Alguém se habilita?

Amar é sentimento grandioso, gratuito e dele eu dou conta. Sei que amo muita gente e sei que sou amada também. Isso é o que importa. Se a amizade querida durou ou teve fim não importa, eu vivi algo real e vou levar isso para sempre no meu coração!

Recado dado! Aniversário festejado.
Sem mais,

Cyntia.



terça-feira, 4 de março de 2014

Há muito tempo não escrevo nada aqui, não é falta de inspiração. 
Talvez falta de tempo, motivação, não sei.
Espero que as palavras voltem logo.
Talvez seja falta delas... é, me rendo, talvez a inspiração tenha dado um tempo.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Facto

Cyntia Pinheiro

O fato, o feto
o féretro, a foto
o fêmur, a fêmea
a falta, o fósforo

a fila, o físico
a favela, o fedor
o favor, a finesse
o fator.

Final. Feliz. Fim.

Saudade...

Cyntia Pinheiro


Saudade de quando eu escrevia...
Alguma palavra bêbada
Que eu bebia
Na entranha de mim mesma
Nostalgia.

20/01/14

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Bulliyng nosso de cada dia...


Cyntia Pinheiro

02/05/13

 

O diferente incomoda.  E não é pouco. Incomoda tanto que é necessário colocar pra fora. Explicitar.

Crianças desde cedo começam a notar o diferente. O que não se enquadra é sempre motivo de comentários. Em um primeiro momento são só constatações, nada maldoso, nada de bulliyng. Já que este é concomitante com o nascimento da malícia, da “maldadezinha” que só criança mais velha tem.

E elas começam a notar o menino que usa óculos, o magricela, o gorducho, o baixinho, o negro, a sardenta, o dentuço, a de cabelos crespos, a nariguda...

Se fossem deuses da beleza vivendo no Olimpo da perfeição até que eu poderia concordar, mas não o são, o que as pessoas precisam perceber desde tenra infância é que ninguém tem o direito de apontar a diferença do outro como sendo um defeito, porque todos somos diferentes e nem por isso nossas diferenças constituem defeitos.

Sofri bulliyng a minha infância inteira por causa da minha estatura, tenho indiscutíveis  1,50m de estatura, quando era criança/adolescente, isso me incomodava muito, mas hoje vejo como sendo uma grande vantagem, pois todos sempre me atribuem menos idade do que tenho.

Os apelidos eram terríveis, de péssimo gosto, há uma palavra que mal consigo pronunciar de tão perversa...  Mas passou! Ufa! Passou! Porém, à época, os danos à autoestima foram terríveis.

E agora, começo a sofrer novamente porque sei que os meus filhos passarão pelo mesmo problema. Eles são e serão pequenos para todo sempre, amém. O que eu puder fazer para que eles cresçam eu farei, aliás já estou fazendo, mas sei que não há muito para ser feito.

O mais velho tem seis anos e, na escola, sempre foi o menor da turma e talvez seja sempre assim. Hoje, ao leva-lo à escola encontramos na porta uma coleguinha que o acompanha desde o maternal, ela disse:

- Samuel parece que tem quatro anos.

Fiquei meio perdida, meio sem saber o que dizer, então respondi:

- Mas ele é muito fofo, né?

Ela respondeu:

- É, ele é fofo mesmo. Só é pequenininho...

Abracei meu filhote e respondi:

- Sabe por que ele é pequenininho? Porque a mãe dele é pequenininha, o pai é pequenininho e o irmão dele também. E você sabia que é muito bom ser pequeno assim?

Para minha surpresa ela respondeu:

- Eu sei sim, as pessoas pequenas se escondem melhor no esconde-esconde e são mais rápidas também.

Com aquela resposta dei o assunto por encerrado. Vi que se tratava só de constatação e que não evoluiria para um bulliyng. Mas já é a segunda vez esse ano que passo por esse tipo de situação com meu filho, e sei que outras virão e coisas beeeeeeem piores serão ditas. Não sei muito bem como agir, se ele fosse gordinho eu teria a resposta na ponta da língua: “ se você não quer que te chamem de gordo, emagreça”, mas, infelizmente, não dá pra dizer: “ se não quer ser chamado de baixinho, cresça”. Como não dá pra dizer ao negro: “ embranqueça”.

Nós temos que aceitar o que não pode ser mudado, mas podemos mudar a mentalidade das crianças para que as diferenças sejam respeitadas. E, trabalhar também, as sensibilidades. Afinal, nem tudo nesse mundo é bulliyng.

Diferença é apenas diferença e todo mundo tem alguma. Dizer que o outro é gordo pode ser ou não uma ofensa, depende do contexto em que isso é dito. Referir-se a alguém pelo seu tom de pele também, detesto quando dizem que fulano é “escurinho” ou “moreninho” quando a pessoa é negra, é negro e pronto, tem que se orgulhar disso, não é motivo para constrangimentos, exceto quando o contexto favorece a ofensa.

Já me chamaram de apelidinhos tão carinhoso que eu gostei, mas já me disseram coisas tão grotescas que eu detestei, tudo é contexto e intenção, essa é a que vale!

Devemos ensinar as nossas crianças a respeitar as diferenças, para um mundo mais feliz!

 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Segredo de beleza

Cyntia Pinheiro
 
 

                Sim, eu vendo cosméticos, não faz muito tempo. Eles são bons, cheiram bem e atesto que são de excelente qualidade, afinal os utilizo quase todos os dias.

                Mas em minhas andanças por aí descobri uma coisa interessante: a beleza está na alma da mulher, muito mais do que na aparência exterior.

                Fiz, agora em março, 35 anos de idade e, isso às vezes me chateia, pois percebo que meu reflexo no espelho tem mudado, já não tenho a pele dos 18 anos, nem a jovialidade dos 15, mas tenho um pouco mais de maturidade e ela deixa marcas na pele. O bom é que agora eu sei que a pele tem jeito, basta seguir um ritualzinho de beleza diário e a gente vai amenizando os efeitos do tempo, afinal toda mulher deseja envelhecer bem.

                Envelhecer bem, por sua vez, é para poucas. Pois não envolve apenas a aparência da pele, o tônus muscular, ou as curvas arredondadas pelo silicone, envelhecer bem é estado de espírito, tal qual a beleza também o é.

                Muitas mulheres nos dias atuais vivem extremamente infelizes, porque são prisioneiras de excessivos cuidados com o exterior e esquecem de nutrir-se da energia do bem-querer, da leveza do ser e do desfrute de doses miúdas e diárias de pequenas alegrias. Vivem tensas porque não podem, em hipótese alguma, serem vistas descuidadas, desprotegidas de sua criação fantasiosa de uma aparência rigidamente impecável. Nem os maridos conhecem suas esposas. Conheço uma com mais de 40 anos de casada e que afirma que o marido jamais a viu desarrumada, sempre se levantou de madrugada para tomar banho, secar os cabelos, vestir-se, perfumar-se, maquiar-se e estar radiante e pronta todas as manhãs ao despertar do companheiro. Para mim, com o perdão da crítica, mas são 40 anos de prisão e martírio!

                Eu prezo a normalidade, a simplicidade, a verdade! Gosto de estar a vontade em casa para rolar no chão quando meus filhos quiserem rolar no chão, para me sujar de tinta com seus pinceis desajeitados, gosto de me lambuzar de sorvete, esfregar a mão molhada no short, gosto de me entregar à vida sem ressalvas, nem frescuras. Jamais vou arrumar a casa maquiada ou bem vestida com medo de perder o amor do marido, isso é o fim da picada! E muita gente se preocupa com isso! Muuuuuuuuuita gente!

                Arrumação tem hora marcada. Até Chico Xavier, um dos maiores ícones de humildade e simplicidade que o Brasil já conheceu usava peruca para esconder a calvície e, segundo ele mesmo, aquela era uma forma de respeitar as pessoas que com ele conviviam, pois as pessoas não eram obrigadas a conviver com tamanha feiura. No meu sentir, ninguém deve se descuidar, andar desleixada ou amargurada com a própria aparência, mas há momentos e MOMENTOS!

                Eu amo me arrumar, me maquiar, me cuidar! Mas não sou escrava disso, faço quando quero, quando posso e porque estou a fim, não para agradar aos outros, mas para agradar a mim mesma e a minha autoestima. Já disse: quero envelhecer bem! Sem excessos! Sem silicone e sem me preocupar com a opinião alheia.

                Pois em minhas andanças por aí também descobri que nada faz uma mulher mais bonita do que o brilho de felicidade em seus olhos e a fartura do seu sorriso franco!

 

27/03/2013

 

               

               

 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Se você fosse um homem eu quebrava a sua cara!

Cyntia Pinheiro


"Se você fosse um homem eu quebrava a sua cara". Ouvi essa frase hoje em um supermercado e estremeci.
Era cedo, cerca de nove horas da manhã, havia pouca gente fazendo compras, o local estava bem tranquilo.
Cheguei ao caixa com os produtos que desejava adquirir, quando os berros de um homem chamaram a minha atenção. Ele esbravejava, xingava e dizia palavras absurdamente grosseiras à moça do caixa, que entre assustada e indefesa, apenas ouvia silenciosamente.
O homem aparentava uns cinquenta e poucos anos, grisalho, bem vestido, boa aparência, apesar da cara de ave (sim, ele parecia um gavião de olhos bem arregalados - coisa que só percebi na saída e mais adiante explico a razão).
A confusão aconteceu mais ou menos uns dez caixas adiante do que eu estava e eu não faço ideia do que houve, mas isso pouco importa. Não vejo razão alguma para tamanha agressão. Nada no mundo justifica que um homem diga semelhantes palavras a uma mulher. Especialmente, uma mulher que está ali representando uma empresa, fazendo nada além do que prestar um trabalho.
Claro que algo aborreceu o homem, e é claro que a moça do caixa pode ter feito algo de errado, mas não, nada me convence de que não houve excesso. O mundo está cheio de gente coberta de razão.
Pessoas cheias de razão não deveriam sair às ruas, porque não conseguem se relacionar com outras pessoas.
Problemas todo mundo tem, mas educação hoje é artigo de luxo! E quem vive cheio de razão nem sempre é capaz de desfrutar da serenidade que a boa educação agrega e saem por aí descontando seus problemas e frustações nos outros.
Me dirigi ao carro angustiada com o que presenciara e ao sair do estacionamento, passando em frente à porta principal do supermercado, vi o homem de perto, ele saia do recinto carregando um pacotinho de pão-de-forma na mão, sim, pão-de-forma, provável motivo da confusão, e olhou para mim com uma cara de arrogância como jamais vi igual, foi aí que notei que ele tinha cara de ave. Um gavião. Grisalho. Olhos esbugalhados. Cheio de razão!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

TIÃO MAIS CONCEIÇÃO

Texto de Cyntia Pinheiro.

(Este é mais um textinho que fiz para teatro, fez teeeeeeeeeeeeempo, foi em 1996 quando vim morar em Montes Claros, tinha 18 aninhos, foi apresentado na faculdade com adaptações e também no Forró do Lorenzo do Conservatório há uns três anos) Divirtam-se:
 


NARRADOR:  

Boa noite, boa tarde, bom dia!
Vô lhes contá um causo
Que assucedeu outro dia.
 
Era uma veiz uma famia
Lá das banda do nordeste
Tinha uma mãe muito pia
E o pai era um cabra da peste.

A fia, uma moça prendada,
Mas era feia, muito arrasada.
Cunheceu um rapaiz
E logo ficô arriada

Um dia o cabra sumiu
E deu uma sardade danada,
Mas quando o coitado vortô
A festa já tava arrumada.

Fugí era um pôco arriscoso
A mode que o pai era pirigoso
E o danado do noivo,
já tinha feito o gostoso.

A noiva prenha e desonrada
A famia intêra aprumada
O padre já na ispera
E o noivo naquela quimera!

Com um "resolve" no lombo
E a dama segurando o pombo
O jeito foi casá.

Ah! Mais a festa foi boa,
O forró nóis dancemo
O quentão nóis bebemo
E o noivo nem tá mais sofreno

Ocêis tinha que tá lá prá vê
A noiva já embuxada
E o noivo sem bem-querê.
Essa é a história que nóis vai contá procê.

 
CENÁRIO: O NOIVO NA PLANTAÇÃO, ENTRA A NOIVA E FICA A RONDAR...


NOIVO:

Ochente, quem é ocê
Que véve a me arrudiá
Parece que qué me vê
O intão qué me falá.

NOIVA:

Né só vê que quero não
Quero sabê o seu nome
O meu é Conceição.

NOIVO:

Eu chamo é Tião
Se ocê é Conceição
Nóis pode namorá intão

NOIVA:

Vixe! Que avexamento!
É agora que eu to quereno
Cum dé fé o derradêro
Vai sê nosso casamento.

NOIVO:

Casá eu num caso não
Só quero mermo é bejá
Ê trem danado de bão
Coisa mió num há.

NOIVA:

Tá acertado intão,
Tião mais Conceição,
Mais agora vou-me já
Senão meu pai vai lhe capá.

NOIVO:

Se me capa tá danado
Mais dê cá meu isperado
Quero bejá ocê
Pra valê o contratado.

NOIVA:

Já sei que ocê tá quereno
É se apruveitá de mim
Num bejo, num bejo, num bejo
Dispois nóis namora um tiquim.


NUMA OUTRA CENA ESTÁ O PAI E A MÃE DE CONCEIÇÃO, ELA CHEGA

 

CONCEIÇÃO:

Ocêis num sabe o que eu achei
No meio da prantação
Um cabra da muléstia
Que arruinô meu coração.

MÃE:

Escute essa maravia
Ela disincaiô
Homi, é sua fia
Que um noivo arrumô!

PAI:

Vamo marcá o casório
Que se o cabra oiá de perto
Vai vê que tá no purgatório
E aí num dá mais certo.

MÃE:

Fia ocê tem que cuá
O chá de mixirica
No imborná de sá
Deixá o cabra tiririca.

CONCEIÇÃO:

Peraí mãinha,
Casá ele num qué não
Inda mais quando ele vê
Que eu sou um canhão.

MÃE:

Num indianta mermo
Ocê me dá sarstifação
Se ocê faiz a simpatia
Pega bem no coração.

PAI:

Quero vê ele num casá
Quando vê minha coleção (MOSTRA AS ARMAS)
A famia vai chegá
E quero padrinho de montão.

 


NARRADOR:

Meus cumpadi ocêis num sabe
É dispois disso tudo
O que Conceição feiz
Cum seu noivo barrigudo.

CONCEIÇÃO:

Tião, nóis ficô noivo
Que casá nóis vai tê.
Meu pai tá incunvidando o povo
Mermo sem ti cunhecê.

TIÃO:

Nóis ainda nem bejô
E eu falei que num casava
Vem aqui meu amô
Pra nóis dá uma apruveitada.

CONCEIÇÃO:

Só vô se ocê falá
Que cumigo qué casá.

 
TIÃO:

Intonce ocê vem
Que dispois nóis cunversa
Pois olhe aqui meu bem
Que hoje eu tô cum pressa.

 
NARRADOR:

Mais Tião ingambeladô
Muita moça já inganô
E dispois de apruveitá
Conceição ele dexô.

Viajô por muitos dia
E num quis aparecê.
Só que ele num sabia
Que também ia sofrê.

O véio pai da moça
Num agüentava mais
Foi buscá o sem vergonha
Pra vê se tinha paz.

Todo mundo quiria sabê
O que ia acontecê
O povo quiria a festa
Que o véi jurô fazê.

Quando suverteu no mundo
Por 4 mêis e 9 dia
Dexô Conceição chorano
Da sardade que sintia

Vortô cum uma arma nas costa
E o povo a isperá.
Conceição com a barriga
Num dava nem pra disfarçá.

O padre preguiçoso
Acordô cedo esse dia
E o povo sem demora
Foi vê a chegada da famia.

Os padrim era Julieta e Manel
Que dero de presente um pouco de sarapatel
Era também Marieta e Serafim
Que truxeram um colchão
todo feito de capim

Zuleica e Abelardo
Truxero só o mal-olhado
Num gostavam do noivo
Que já tava incabulado

Veio também os pai do noivo
Seu Hermilino, num é minino
E Dona Fernergunda, num é corcunda,
Só truxero raiva e insastifação
Pois a noiva feiz o chá só pra sigurá Tião.

De agora indiante é assustadô
Oceis num sabe o vexame que o noivo passô
Como num quiria entrá, o véio apertô.

 
NOIVO:

Eu num quero casá
Cum essa muié banguela
Por isso num vô entrá
Nem vô abrí a cancela.

PAI:

Entra disinfeliz
Senão ocê vai vê
Três furo nesse nariz
Meu RESOLVE vai fazê.

NARRADOR:

O noivo tentou ir embora
Mas num dava pra correr agora
Oiô pra noiva Conceição
Vixe! Pió que assombração!
E o cabelo ruim
Mermo que vê um aramão.

PADRE:

Tião, ocê é um moço
Que trabaia pra vivê
Entrô nesse sufoco
Quê que nóis pode fazê?

TIÃO:

Olhe seu padre
Casá eu num quero não
Essa muié é muito feia
Inté parece assombração.

JULIETA:

É, na hora de fazê o gostoso
Botô um trabissêro na cara
Agora fica o bustiquento aí
Enrolado a pobre desonrada.

MANEL:

É mermo seu padre
Disincaia essa muié
Pois nóis qué dançá forró
E cumê muito paste.

PADRE:

Intonce nóis já vamo rompê
Mais Conceição ocê sabe
Esse homi num qué ocê.
 
CONCEIÇÃO:

Eu sei seu padre
Isso num é novidade
Mas nenhum qué
Essa é a verdade.

PADRE:

Seu Tião, o sinhô aceita
Entrá na forca e casá cum Conceição?

TIÃO:

E tem jeito de falá não
Cum o pai dela nas costa
Sigurando um revolvão?

PADRE:

Conceição, ocê que é incaiada
Qué casá cum Tião?

CONCEIÇÃO:

Num tem jeito,
Eu quero sim
Pois num vô achá ôtro
cum corage de oiá pra mim.

ZULEICA:

Ande logo seu padre
Que o quentão vai isfriá.

ABELARDO:

Indianta esse negóço
Pru forró nóis cumeçá.

MARIETA:

Ahhhhhh! (CHORANDO)
Discurpa, mais eu chego emocioná,
Um rapais inté bunito
Minha afiada vai sigurá.

SERAFIM:

Cala a boca muié
Num interrompe o sirviço
Casô a mode que ta prenha
E nóis num tem nada cum isso.

MÃE DO TIÂO:

O meu fio esse rapaiz
Nem apruveitô da vida
Agora ta casano
Cum essa desenxabida.

 
PAI DA CONCEIÇÃO:

                                Minha fia é prendada
E é moça direita
Só é um pôco arrasada
Mais inda vai sê prefeita.

PADRE:

Cala a boca por favô
Que eu priciso terminá
Esse casamento da muléstia
Para a festa cumeçá.
Se o noivo tive corage
A noiva pode bejá.

NOIVO:

Corage num tenho não
E num vô nem tentá
Pode ligá o são
Pru forró nóis cumeçá.

NARRADOR:

Ocêis num sabe que tristeza
Acabô assucedendo
Enquanto o povo dançava
A noiva ali sofreno
Tião foi bem dançá
Com as moça que tava lá
Nem viu Conceição
Que se pôs a chorá.
Só que essa tristeza
Inda vai sê maió
Quando ela dé pru fé
Ô dó!
No meio do rasta pé
Foi que Tião armô
Fugiu com a madrinha
Que a todo mundo inganô
Fingindo num gostá do noivo
Zuleica de Abelardo
Ingambelô o povo
Que ficô todo avexado!
No fim do forrozão
Foi que veio a tristeza
Na maió disilusão
Abelardo e Conceição
Sobraro que foi uma beleza!
Sem marido e sem muié
Cum a raiva lá dentro
Avisaro pro veio
Que ficô ferveno.
Cum a arma na cinta
Ocêis sabe o que ele fêiz?
Foi atrais do noivo?
Nunca mais ôtra vêiz.
Feiz foi ajuntá os dois
Pra mode eles assussegá
Foi uma locura,
Nóis num pode negá.
Mais o cabra da muléstia
Só eu sei o quê que virô
Contô essa história
Fingindo sê narradô.
No finar desse causo
Nem todos ficô feliz
Coitado do Abelardo
Num teve o finar qui quis.

 

 

(Cyntia Cybelle Pinheiro)

Escrito em 1996.

 

 

 

 

 

 

 

 

A Rosa e o Cravo

Este é um singelo texto que fiz para o meu irmão Giordano Pinheiro musicar e para ser apresentado pela equipe de musicalização do Conservatório Lorenzo Fernandez em fevereiro de 2011, e ele ainda não terminou de musicar... rs... Então compartilho para que vocês façam as merecidas críticas, antes que ele vire música. Beijinhos, Cyntia.

A Rosa e o Cravo
 
 Texto de Cyntia Pinheiro

Música de Giordano Pinheiro

Fevereiro / 2011

 
Cena 1: O palco é um jardim e a menina entra para regar suas flores cantando:

 Música:


O suave perfume do amor
São delícias em forma de flor
E as gotinhas de orvalho a beijar
Cada pétala faz cintilar...

Hum...
 
A beleza do jardim em flor
São as cores que fazem vibrar
Borboletas trazendo o frescor
Passarinhos que vêm visitar...

Hum...

Cena: Enquanto rega, conversa com as flores:

Menina:

Crisântemos tão queridos!
Enfeitam meu coração
Tão belos e tão coloridos,
Fazem festa na estação.

Margaridas tão delicadas
Orvalhadas e belas,
Mais felizes sois
Em todas as primaveras!

Ah, girassóis!
Quantos sóis perseguem de dia
Enchem meu jardim de beleza
E a vida de nostalgia!

O meu cravo solitário
Tão bonito e tão só
Precioso relicário
Tanta pena! Tanta dó!

Roseiras, begônias e alecrins
Margaridas, crisântemos e jasmins
Como é bom ter flores pra enfeitar
Um jardim tão lindo de cuidar!

Música tensa – muda a entonação

Mas, ouçam-me com toda atenção!
Antes que a lua cheia caia, no negro céu escuridão
A mais bela dentre vós eu vou buscar
Vou colhê-la para um vaso enfeitar
Pois uma flor alegra todo coração
E é uma oferta especial, de gratidão!
 
Cena: A menina sai cantarolando a música do começo. As flores discutem entre si:
 
Rosas: Vocês ouviram? O que está por vir?
Begônias:  Ai, ai, minhas pétalas vão cair!
Alecrins: Ela vai escolher uma flor, a mais bela do jardim.
Girassóis: Com certeza isso vai
                   Acabar sobrando pra mim!
Margaridas: O que vai acontecer?
                        Ela disse que vai nos colher?

Cravo:      Ora, ora quanto alvoroço!
                  Ser colhido não é pra um qualquer
                  Eu aqui sou o único moço
                   Ela nem vai precisar do bem-me-quer
                   Seja lá o que for isso de colher
                   Estou certo de que sou especial
                   Vocês vão ver o que vai acontecer
                   O cravo sendo aclamado na geral
 
Girassóis: Você não tem razão
                   Só pode estar muito doente
                   É claro que o girassol
                   É muito mais imponente

Crisântemos:      Ai, ai, quanto desgaste
                            Olhem bem, vejam vocês,
                            Não perceberam as cores fortes?
                            Dos crisântemos chegou a vez.

Cravo:      Não agüento mais tanta bobagem
                   Ela gosta bem mais de mim
                   Que sou o único cravo nessa paisagem
                   Não percam seu tempo discutindo assim

Rosa:        Não sei não, meus amigos
                   Esse negócio de colher
                   Está me cheirando a perigo
                   Ai, quem me dera poder correr!
 
Cravo:      Pronto, chegou a dona desconfiança
                  Não agüenta a idéia de que vai perder
                   Quanta ignorância! Rosa, desiste!
                   Essa festa não é para você!

Rosa:        Mas eu nem quero concorrer
                   Tenho é medo de ser colhida
                   Não sei se isso vai doer

Cravo:      Doer? Claro que não!
                   Não dói virar celebridade
                   Minha clorofila purpurinada
                   Nos holofotes será realidade!

Rosa:        Cravo, não penso assim
                  Tem algo estranho no ar
                   Penso que algo ruim  
                   Vai acontecer, pode apostar!
 
Cravo (debochado):  A fotossíntese você já fez?
                                      Porque tá parecendo biruta
                                      Eu sou melhor que vocês
                                      E, por favor, Rosa, não discuta!
                                      Você ainda é um botão
                                      Portanto, fique em seu lugar
                                      Você não tem chance não
                                      Então pare de me agourar!
         E grita:                Sai pra lá!!!!!!!!

Rosa:        Cravo, mas e nossa amizade?
                   Você não fica triste?

Cravo:      Eu vou virar celebridade
                   Nossa amizade não mais existe!
 
Todas as flores:          Oh! A amizade acabou!
                                      E agora, o que restou?

Música:  O cravo brigou com a rosa

Todas as flores: Calma, Rosa!
                             Não fique assim tão triste
                              O tempo cuidará do cravo
                              Confie em nós, acredite!

Begônias: Nos dias que se seguiram
                  A rosa só pôde chorar
                   E o cravo mesmo doente
                   Não se deixou cuidar

Alecrim:   Ficava aborrecido
                   Em um canto, muito irritado
                   Pensando no acontecido
                   E não se dando por achado!

Girassóis: A rosa, pobrezinha
                   Lamentava, fazia dó
                   Tinha pena de ver como o cravo
                   Não tinha amigos, estava só!

Crisântemos:     Mas não adiantou
                           Tanto pranto e infelicidade
                            O cravo se recuperou
                            E logo voltou a realidade
 
Margaridas:      A rosa que já murchava
                            Ficou feliz em ver que o cravo
                            Já não agonizava
                            Ganhou viço, desabrochou,
                            Majestosa, bela e branca!
                            Ainda gostava do cravo
                            Nisso era bem franca.
 
Begônias: O cravo continuava petulante
                   Tinha certeza de que ganharia
                   Uma guerra que ele criara
                   No mundo da fantasia
                   Confiava em seu semblante
                   E na pinta de galanteria
 
Música tensa / meia luz
 
Alecrins:   Eis que aconteceu
                  Quando o jardim dormia
                   A lua cheia boiava
                   No negro céu que surgia

Girassóis: Contam as margaridas
                  Que a menina chegou sorrateira
                   Tesoura em punho levou a rosa
                   Com um único golpe, certeira!

Música de suspense

Crisântemos:     E lá está seu lugar
                            Vazio e desolado
                            Assim como se sente o cravo
                            Depois do golpe amargo
 
Margaridas:      O jardim se entristeceu
                            Sem a rosa pálida e singela
                            O cravo quase morreu
                            De tanta saudade dela

Cravo:      Como dói meu coração!
                   Que tragédia aconteceu
                   Como fui tolo e insensato!
                   Devia mesmo ter sido eu.
 
                   A rosa não merecia
                   Um destino assim tão mau
                   E eu que aqui pensava
                   Que ser colhido era legal!
 
                   Como posso ter brigado
                   Com uma amiga só por vaidade?
                   Amizade vale tanto
                   Por que perder por bobagem?
 
                   Agora eu aqui só lamento
                   A falta que ela me faz
                   Seguirei com meu tormento
                   Até quando? Não sei mais!
 
Techo de Música: Carolinha – Chico Buarque / somente o trecho que diz: “... uma rosa morreu... nosso barco partiu... etc”
 
Begônias: O cravo finalmente
                   Aprendeu a grande lição
                   Amizade vale muito
                   Brigar não é bom não!
 
Alecrins:   E quando essa história
                   Estava quase chegando ao fim
                   Ela voltou ao começo
                   Uma surpresa pro alecrim
 
Margaridas:      O jardim voltará a sorrir
                            Disso eu tenho certeza
                            Começando tudo outra vez
                            Para acabar com a tristeza
 
Girassóis: Três dias depois que a rosa partiu
                   A menina voltou ao jardim
                   Com um vaso bem pequeno
                   E o plantou bem perto de mim
 
Crisântemos:     E disse com os cabelos ao vento
                            Uma coisa muito importante
                            Que nesse curto espaço de tempo
                            Já era pra nós emocionante!
 
Menina:    Nesse vaso trago nova
                   A sementinha do amor
                   Plantei uma mudinha
                   Da rosa que desabrochou
 
                   A mamãe ficou feliz
                   Em ganhá-la de presente
                   Mas sabe que uma flor
                   No jardim é mais contente
 
Cena: As flores gritam e comemoram cantando a música final:
 
Refrão:      Menino, o teu jardim tem flor? Ôôô
                   Cuide com amor (bis)
 
                   Menino cuide bem do teu jardim
                   E uma flor vai nascer tão linda assim
                   Não precisa ser a mais especial
                   A beleza quando surge é natural
 
 
FIM