Cyntia Pinheiro
Outro dia meu filho de cinco anos nos saiu com essa: "Pai, a única coisa que a gente tem na vida é o pescoço." Preocupado em justificar o sentido da frase depois de ouvir gargalhadas incontroláveis da mãe e do pai, emendou: "É porque se cortarem nosso pescoço a gente morre, ué, o pescoço é muito importante." Ainda gargalhávamos enquanto ele insistia: "O pescoço é importante, gente, pois ele vira a cabeça de um lado para o outro, ué."
Enfim, controlamos o riso e concordamos, de fato, o pescoço é muito importante. Entre uma ponderação e outra eu ainda explodia numa gargalhada escandalosa que deixava meu pequenino meio sem graça. Mas depois ele entendeu que a frase foi interessante e até mesmo engraçada, por isso rimos tanto, não ríamos dele, mas da frase.
Tal frase me fez recordar uma aluna de canto que tive comigo por três anos, a Suely, uma senhora animada, professora aposentada, de voz doce e melodiosa, afinadíssima e muito dedicada. Além de todos esses predicados musicais, Suely era uma mulher sábia, uma matriarca. Contava-nos sempre suas aventuras em família e, especialmente, sua perspicácia ao lidar com os genros e noras.
Certa vez, ela disse a mim e às suas colegas de canto, que nós mulheres devemos "encher a bola" dos nossos maridos, dizer a eles que eles são muito importantes na casa, e devemos ser bem convincentes para que a autoestima deles fique elevada. Segundo Suely o homem deve acreditar piamente de que ele é a cabeça da família, sendo a cabeça é ele quem conduz todas as coisas, coordena, lidera, mas o homem jamais deve perceber que por trás disso tudo está a mulher, e ele não deve nunquinha descobrir que a mulher é o pescoço, afinal é o pescoço que move a cabeça e a faz olhar na direção que só ele, o pescoço, orienta.
Assim, quis ela dizer que, o homem deve ser encorajado a ser o chefe do lar, sem nunca descobrir que quem manda mesmo é a mulher, porque o homem é a cabeça, mas a mulher é o pescoço, e a cabeça só olha pra onde o pescoço quer.
Concluí que meu pequenino estava certo, a única coisa que a gente tem na vida é o pescoço, afinal o que seria da cabeça sem ele??????
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Letras dos amigos
Quem é Damião Cordeiro? Ele se autodenomina de "O Poeta do Acaso", mas não foi por acaso que um dia eu pedi ao Délio Pinheiro - nosso amigo em comum - que falasse com o Damião para me aceitar como sua amiga no orkut, foi porque me encantei com sua escrita. E ele, generoso que é, me mandou um monte de coisas suas para eu ler. Li tudo, tudinho mesmo, gosto de receber textos no papel, gosto de tocar no papel e adoro ler Damião. E estou sempre recebendo textos dele para ler, leio com carinho e quando eu crescer quero ser igual a ele, que é um poeta com o condão de nos fazer enxergar, sentir aromas, sabores e tudo o mais através da mágica de suas letras certeiras, leiam com carinho, com vocês Damião Cordeiro, o Poeta do Acaso!!!
DOENÇA DA CARNE: AMOR DOENTIO
Lá, onde a aurora soltava maravilhoso doirado cacho, mas, todo ouro belezura crepusculava no efêmero, carnalmente, sobrevivia a estonteante Lia socada numa tirinha de lugar, entre a escravatura corporal e o desleixo do espírito. Lá, lá, bem no epicentro lamacento e encharcado em dor chumbo. Também, amar daquele tanto era de doer. Uma enfermidade fincada no rijo da carne. Lia carregava um grande amor transbordante que não cabia na caixa do peito dela. Lia, uma quase sem-terra que ao mesmo tempo era mulher-matéria devoluta, terra de ninguém, terra de todos. Lugar onde qualquer um pisoteava, fazia lama e não deixava sequer uma marca de amor.
Essa tal de Lia era analfabeta, mas, muito lida em anúncios privês. Lia era (muda calada), porém, trazia o sexo na ponta da língua. Exímia leitora, Lia lia com a ponta da língua e com todos os olhos e com todas as bocas. Enfim, com todos os poros do seu corpo sovelado e esburacado pelos ferrões da macheza. (Amar dói muito), um “entregar-se” desmedido. Lia lia demais. Lia amava demais, Lia, boa Lia! – Um poço de bondade - Lia lia demais. Lia amava demais. Lia, demais !!! Lia, demais!!! assim, cinicamente, diziam os insaciáveis garanhões fedorentos, esses doentes compulsivos doidos por prazeres inventados. Lia amou demais, mas, pegou doença do mundo. Coitada, Lia, uma mulher muito lida em anúncios privês, uma mulher tão prestativa e tão dada facilitou e não pôde ler o receituário da vida: PREVINA-SE CONTRA O ÓDIO DO MUNDO!
Era eu Lia, uma mulher de mil gostos, uma mulher de mil homens, fui reduzida em desgostos, minha causa mortis – disse Maria da Assumpção ao dar com o chaveiro celestial à porta do grande Salão da Claridade cantarolando um hino de louvor e pinicando na viola de São Gonçalo. Bonachão e acudidor de gente em hora de agoniada precisão, mesmo com a voz desafinada e de olhos acrescidos, prontamente, São Pedro acudiu: entre minha filha, entre. Não precisa tirar toda a sua... culpa. Não carece debulhar rosários e mais rosários de íntimas particularidades em confissões desnecessárias. Poupe-me dos detalhísmos descritivos, não posso mais cair em tentação, e outra, tenho cargo de confiança, por isso, não vou negar o meu fidedigno voto de castidade. Espiritualmente, recebi o seu curriculum vitae, já sei de tudo na ferida viva do meu coração, por isso tudo, não precisa ficar mais na salmoura do purgatorium encardido, pois é dele que acaba de sair. Limpa, sarada e distante dos assédios dos grileiros de sentimentos, Assumpção pisou no que é dela de direito, assim que recebeu das santas mãos do Pai supremo a sagrada escritura do latifúndio eternidade...
Damião Cordeiro - o Poeta do Acaso.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Campeonato no céu
Cyntia
Pinheiro
Para os meus
filhotes
28/06/2012
Um dia lá no
céu
Deus teve
uma ideia legalFazer um campeonato
Para o mundo animal
Dessa vez só
as aves
Poderiam participarEm várias categorias
Desde as do solo até as do ar
Somente
machos de inscreveriam
Pássaros
canoros ou elegantesCada qual mostrando sua arte
Ou algum talento bem importante
Para a festa veio o peru
Concorrendo com o galo e o pavão
Com sua gravata bem vermelhinha
E sua cara de bonachão
A galinha já
comentava
O galo será
o campeãoO peru é muito empolado
E é exagerado esse tal de pavão.
Na ala dos
cantores
O chilrear
do curióFez o canarinho pensar
Que o sabiá lhe dava dó
Mas a
torcida feminina
Era coisa
muito sériaDona canária bem dedicada
Estava quase ficando histérica
Mas não seria moleza
O júri estava afiado
Querubins alados notavam
Cada detalhe preparado
Depois do
desfile das aves do chão
Houve uma
grande revoadaA ave que voasse mais bela
Haveria de ser premiada
Do albatroz
à gaivota
Asas bem
grandes no céu batendoDa jacutinga tenho saudade
Voos bem leves por sobre o vento
Cada categoria passava agora
Por uma grande seleção
Aves do céu e aves do solo
Não estavam brincando não
Arara, tucano
e beija-flor
Na categoria
dos mais belos Águias, gaviões e corujas
As de rapina travavam um duelo.
Do primeiro
grupo foi eleito o pavão
Para desconforto
da galinhaPois o galo era o favorito dela
E o peru nem chance tinha
Quanto aos cantores canarinho, sabiá e curió
Difícil mesmo foi escolher
Mas pelos melismas muito bem feitos
Canarinho teve mesmo que vencer
Na categoria
de voo bonito
Levou a
melhor a JacutingaAlbatroz e Gaivota gritaram: “Marmelada!
Só ganhou porque está quase extinta.”
Apesar das
cores vivas
Arara e Tucano
foram desclassificadosPois a sutileza do beija-flor
Deixou a todos encantados.
Águias,
gaviões e corujas
Desistiram
da competiçãoPensaram que não tinham chance
Com as outras aves não
Além do mais
uma nova etapa
Muito mais
exigente, Reunirá os classificados
E escolherá novamente
Dentre os
selecionados
Pavão,
Canarinho, Jacutinga e Beija-florSerá escolhido aquele
Que melhor simbolize o amor
O Pavão foi
logo dizendo
Com sua cara
de espantadoMelhor símbolo sou eu
Que de tão lindo pareço encantado.
O Canarinho
nada modesto
Cantarolou
seu argumento“O amor tem minha cara
E nem preciso de instrumento”
A Jacutinga
por sua vez
Até que
argumentou bem:“Estou quase extinta
Feito o amor que já não se tem”
Mas lindo
mesmo foi o Beija-Flor
Que disse bem
humorado:“Símbolo do amor sou eu,
Pois Deus já me fez coração alado.”
E todos
nesse dia souberam
Que o
beija-flor é todo coraçãoMelhor símbolo não haveria
Para ao amor fazer menção.
E Deus,
sábio que é
Tratou logo
de dizer:Não ganhou por ser mais belo
Mas ganhou por merecer
Não adianta
ser imponente
Nem ter asas
grandes para voarBasta ser todo amor
Com um coração pronto para amar.
Nessa grande
competição
Quem mais se
deu bemFoi o beija-flor pequenino
Símbolo do amor e querer-bem.
Apocalipse Now
Cyntia
Pinheiro 28/06/2012
Ontem me deparei com uma notícia
na internet que me fez refletir um pouco: a Coca-Cola vendida no Brasil possui
alto teor de uma substância cancerígena. Mas qual a novidade disso? A mim nada
parece novo, afinal, se pararmos para pensar não existem mais alimentos
saudáveis, exceto aqueles que você possa cultivar com as próprias mãos em sua
horta ou no seu galinheiro particular, o mais está contaminado pela avareza
humana.
Tudo é cancerígeno e não é
necessário ser especialista para perceber isso, afinal, os casos de câncer vêm
crescendo assustadoramente nas últimas décadas, resultado da nossa alimentação
contaminada de produtos químicos, tais como conservantes, corantes,
aromatizantes artificiais, etc.
Em meados da década de 80 – um
tempo não muito distante – ouvia-se raramente falar de alguém que portava a
doença, lamentavelmente, o diagnóstico era uma sentença de morte, hoje,
felizmente muitos casos são tratáveis e alguns deles 100% curáveis, o que
demonstra que não estamos lançados à própria sorte, a ciência evoluiu e
continua evoluindo, prova de que Deus tem compaixão apesar de nossa
irresponsabilidade.
Mas o câncer, embora tratável, é
uma doença que gera muito sofrimento e, infelizmente, vitimará muitos de nós no
futuro, porque a ganância do homem é muito maior do que o seu senso de
moralidade.
Estamos acabando com o planeta e
conosco mesmos. Somos escravos do dinheiro e é ele quem dita as normas por
aqui. Quem pode pagar não fica mais com os cabelos encaracolados, porque o formol lhe dá um resultado perfeito,
mas ninguém pensa nas consequências disso daqui uns anos. A vaidade é tão burra
ou ingênua quanto inconsequente.
Não sabemos a procedência dos
alimentos que consumimos, o leite dura seis meses ou mais dentro de uma caixa
de papel, dobra-se o volume com água oxigenada, pouco importa se crianças o
consumirão. Comidas prontas vendidas em caixinhas que duram “milagrosamente”
até um ano. É hormônio para engordar o frango, e muito, muito mais... Coisas
que nem imaginamos, tudo feito estrategicamente para enriquecer algumas pessoas
sem a menor cogitação de respeito pelo semelhante.
Então partimos para uma dieta
saudável, mais frutas, verduras, legumes e, iludidos, não conhecemos a
procedência de nada, nem do volume lastimável de agrotóxicos utilizados em sua
produção. A menos que plantemos nossa própria hortinha (aqueles que têm o
privilégio de um espaço no quintal), estamos todos vivendo a falsa impressão de
que nossa alimentação está saudável.
Isso demonstra quão vil é o homem
e o quanto ainda precisamos evoluir. E isso vai levar tempo. Muitas gerações
(se o planeta não derreter antes) ainda nascerão aqui para fazer o que precisa
ser feito. Enquanto o dinheiro for mais importante do que a vida do outro, enquanto
continuarmos destruindo essa magnífica biodiversidade do planeta terra a custa
do enriquecimento material, enquanto os políticos continuarem solapando a grana
da merenda das crianças que nada têm em casa para comer, enquanto continuarmos
sendo essa gentinha que temos sido
até aqui, não mereceremos habitar esse mundo maravilhoso que Deus nos deu.
Só um apocalipse mesmo para salvar
esse planeta lindo de nossas garras tão cruéis, afinal, somos o câncer do planeta e ele está começando a fazer quimioterapia.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Festa de maio
Josilmar Batista Pinheiro (papai)
21/05/2012
21/05/2012
Como todo taiobeirense que se preze, sinto-me orgulhoso
quando ouço visitantes elogiarem minha cidade, enaltecendo sua organização,
suas ruas limpas, seu comércio dinâmico, enfim o seu aspecto de cidade bem
cuidada e bem administrada.
Digo isso, sem puxa-saquismo, porque a verdade salta aos
olhos e não há como não enxergá-la, mesmo
que alguém queira fazê-lo.
Hoje, ao me levantar da cama, estive pensando na maravilhosa
festa promovida pela poder público e que ontem teve o seu encerramento. Vi e
ouvi muitas pessoas dizerem que foi a melhor de todos os tempos, pela
organização, pelo quantidade de visitantes e, notadamente, pelo aumento do
volume de expositores na FERARP, o que reflete algo de muito bom para a
economia do município.
Tudo isso nos enche de orgulho e nos faz crer que a nossa
querida e abençoada terra está no caminho certo e que dias ainda melhores virão
por consequência do que está sendo feito hoje.
Acredito e desejo ardentemente que iremos alcançar progresso
cada vez maior em todas as áreas, mas ao mesmo tempo, vejo com ressalvas uma
área em que Taiobeiras precisa melhorar. E melhorar muito: a área cultural.
Sei o quanto é difícil despertar na cabeça das pessoas o
gosto pela arte verdadeira, que faz bem ao espírito e, principalmente, nos faz
ver o mundo de forma mais amena. O fato é que a grande massa popular está completamente
envolvida e até induzida pela mídia a gostar e a consumir o que é mais fácil de
se assimilar mas que, quase sempre, se
constitui em verdadeiro lixo cultural, descartável, fútil, tornando-se vetor da
destruição dos valores morais, às vezes levando precocemente as pessoas ao
consumo desenfreado de drogas e à prática da prostituição. Estou falando
especificamente de músicas que “rolaram” no grande palco, nos quatro dias de
festa.
Neste cenário, fica extremamente difícil apresentar algo diferente,
porque seria NADAR CONTRA A CORRENTEZA,
mas estive pensando no que ouvi de uma pedagoga recentemente e achei
oportuno transcrever seu pensamento nestas mal traçadas linhas: “DEUS, na sua
sabedoria infinita, quando deixa de atender alguns de nossos pedidos, é porque,
com certeza, Ele sabe que o que estamos pedindo não é bom para nós, tanto é que
mais adiante vamos enxergar isso com clareza. Se perguntarmos a uma criança o que ela gostaria
de fazer na sua vida, ela responderia que gostaria de não ter que ir à escola,
e que a deixassem brincar o tempo todo com vídeo-game, etc., e que não a proibissem de fazer o que ela bem entendesse.
No entanto, os pais, sabedores de que esse não é o caminho certo, insistem em
levá-la para um educandário.
Ante o exposto, na minha humilde visão dos fatos, acredito
que deveria haver um critério mais seletivo na escolha dos grupos musicais,
sejam da cidade ou não, que venham a se apresentar no palco da nossa festa mais
prestigiada do ano. Ontem, na noite de encerramento, vi um grupo cantando
músicas sertanejas com letras de duplo sentido, incitando à prática de sexo,
com duas pré-adolescentes no palco, dançando à frente, de forma exortativa a
atos libidinosos. Aí perguntei a mim mesmo: onde estão as autoridades (Conselho
Tutelar, Juizado de Menores) para coibir tais abusos? É bom não nos esquecermos
da pecha horrorosa atribuída a Taiobeiras há algum tempo, por causa da
prostituição infantil.
domingo, 20 de maio de 2012
Lágrima amarga
Cyntia Pinheiro
Acabo de retornar de agradável passeio à casa dos meus pais em Taiobeiras. Fomos eu e meus pequenos Samuel e Vinícius passar uma semana por lá e o maridão/paizão nos buscou no fim de semana.
É bom viajar, mas também é bom retornar. Porém, apesar de agradáveis - passeio e retorno - , uma imagem marcará para sempre a minha vida, uma imagem triste para mim.
No dia 17 de maio estive visitando minha avó paterna, a quem carinhosamente chamo do Vovó Lita. Ela que sempre foi uma mulher alegre, divertida, cheia de piadas e sorrisos largos, padece há algum tempo do famigerado Alzheimer. Nas outras visitas que fiz, em outras idas a Taiobeiras, apesar de decadente, vovó me parecia melhor, seus olhinhos ainda brilhavam, sua voz ainda era ouvida e ela podia se mover com facilidade.
Dessa vez, cortou-me o coração vê-la parada, olhar distante entre um cochilo e outro, imóvel por quase todo o tempo. Já não sustenta a saliva e sua face está rígida. Não é a mesma vovó. Vovó Lita tinha uma voz estridente, barulhenta, alegre, tinha sempre uma piadinha pronta e me contava seus romances dos tempos de solteirice. Trabalhou e aposentou-se nos correios, tinha uma letra bonita, fluida e uma boa cabeça para os números.
Apaixonados, ela e o vovô, até pouco antes da doença, poderiam ser vistos em qualquer noite passeando de mãos dadas pela pracinha no centro da cidade. Dinâmica, inteligente, feliz. Assim era a vovó. Como pôde ficar desse jeito tão tristonho de se ver?
Com zelo as tias queridas cuidam dela dia e noite e o vovô já nem espera mais que o tempo a faça melhorar, o vovô continua acarinhando, beijando, amando como a amou a vida inteira, sempre foram um casal lindo de se ver. Jamais brigaram, sempre os víamos namorando, mesmo com o embranquecer dos cabelinhos.
Ao sair, mesmo tendo ouvido dizerem que ela já não reconhece mais ninguém, peguei com firmeza em seus ombros, e perguntei: "Vovó, você se lembra de mim? Sou a Cyntia" e ela olhou no fundo dos meus olhos, fez um minúsculo gesto de afirmação e uma grossa lágrima escorreu pelo canto de seu olhinho esquerdo.
Jamais me esquecerei desse momento, que me emociona, entristece e que me marcou para sempre.
Que Deus lhe conforte, vovó querida, todos os dias, até que chegue o dia de partir.
Com todo afeto do meu coração,
Cyntia Pinheiro.
Acabo de retornar de agradável passeio à casa dos meus pais em Taiobeiras. Fomos eu e meus pequenos Samuel e Vinícius passar uma semana por lá e o maridão/paizão nos buscou no fim de semana.
É bom viajar, mas também é bom retornar. Porém, apesar de agradáveis - passeio e retorno - , uma imagem marcará para sempre a minha vida, uma imagem triste para mim.
No dia 17 de maio estive visitando minha avó paterna, a quem carinhosamente chamo do Vovó Lita. Ela que sempre foi uma mulher alegre, divertida, cheia de piadas e sorrisos largos, padece há algum tempo do famigerado Alzheimer. Nas outras visitas que fiz, em outras idas a Taiobeiras, apesar de decadente, vovó me parecia melhor, seus olhinhos ainda brilhavam, sua voz ainda era ouvida e ela podia se mover com facilidade.
Dessa vez, cortou-me o coração vê-la parada, olhar distante entre um cochilo e outro, imóvel por quase todo o tempo. Já não sustenta a saliva e sua face está rígida. Não é a mesma vovó. Vovó Lita tinha uma voz estridente, barulhenta, alegre, tinha sempre uma piadinha pronta e me contava seus romances dos tempos de solteirice. Trabalhou e aposentou-se nos correios, tinha uma letra bonita, fluida e uma boa cabeça para os números.
Apaixonados, ela e o vovô, até pouco antes da doença, poderiam ser vistos em qualquer noite passeando de mãos dadas pela pracinha no centro da cidade. Dinâmica, inteligente, feliz. Assim era a vovó. Como pôde ficar desse jeito tão tristonho de se ver?
Com zelo as tias queridas cuidam dela dia e noite e o vovô já nem espera mais que o tempo a faça melhorar, o vovô continua acarinhando, beijando, amando como a amou a vida inteira, sempre foram um casal lindo de se ver. Jamais brigaram, sempre os víamos namorando, mesmo com o embranquecer dos cabelinhos.
Ao sair, mesmo tendo ouvido dizerem que ela já não reconhece mais ninguém, peguei com firmeza em seus ombros, e perguntei: "Vovó, você se lembra de mim? Sou a Cyntia" e ela olhou no fundo dos meus olhos, fez um minúsculo gesto de afirmação e uma grossa lágrima escorreu pelo canto de seu olhinho esquerdo.
Jamais me esquecerei desse momento, que me emociona, entristece e que me marcou para sempre.
Que Deus lhe conforte, vovó querida, todos os dias, até que chegue o dia de partir.
Com todo afeto do meu coração,
Cyntia Pinheiro.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
É isso aí, bicho!
Josilmar Batista Pinheiro
Fico pensando na
relativa rapidez com que ocorrem as mudanças na forma das pessoas se
expressarem. É impressionante observar como as palavras desaparecem do
linguajar do povo, dando lugar a novos vocábulos, sendo que algumas palavras persistem
em continuar no vocabulário popular.
Eu que pertenço a
geração que sofreu uma verdadeira revolução na música, na moda, etc., às vezes penso no turbilhão de gírias que
surgiram na minha juventude, impulsionadas pelos ídolos da música, como Roberto
Carlos, que até hoje gosta de tratar as pessoas de sua convivência, de forma
carinhosa, usando as expressões: "é isso aí, bicho!" , "são
muitas emoções, bicho"...
Não tenho a pretensão de
fazer uma análise detalhada das influências sofridas pela nossa língua pátria
ao longo dos tempos, até porque não tenho o preparo necessário para isso. O que
na verdade desejo é expor fatos pitorescos a que tive oportunidade de
presenciar e que achei engraçados, pela forma inusitada como aconteceram.
Lá pelos anos 80, o
Grupo de Jovens Beija-Flor, entidade ligada a religião católica, todos os anos,
durante as comemorações da semana santa em Taiobeiras, encenava a peça teatral
referente à paixão e morte de Jesus Cristo. Eu sempre participei, na parte de
direção, com alguns pitacos.
Estava
eu sentado no meio da platéia que lotava o salão onde funcionava o Clube
Social, assistindo compenetrado ao
desenrolar da peça, que já se encaminhava para sua parte final, em que Jesus é
submetido a interrogatório. Usando o
palavreado erudito do texto bíblico, Pilatos, vira-se para Jesus e diz: "Tu és mesmo o filho de Deus?" E Jesus,
responde cabisbaixo: "Tu mesmo
o dizes".
Aproveitando-se
do intervalo que veio a seguir, um então jovem amigo que estava ao meu lado,
saiu com essa tirada: "Se fosse nesta época de hoje, Jesus, que era um
jovem revolucionário, teria respondido assim: " É isso aí, bicho!...' "
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