Cyntia Pinheiro
Lá no céu havia uma escola de anjinhos, meninos-aprendizes de todos os tamanhos, desde bebês-anjinhos até mocinhas e rapazinhos angelicais. Anjinhos de cabelos cacheados, de cabelinhos lisos e crespos. Anjinhos negros, loirinhos e de olhinhos puxados também.
Em uma linda manhã de sol, o anjinho Astolfo, que era o mais peralta dos meninos-anjo de sua idade, pulava de nuvem em nuvem, sentindo em seu rostinho rosado a brisa cariciosa e os raiozinhos de sol que lhe tocavam delicadamente a testa. Sabia que o Papai do Céu estava de olhos bem abertos, prestando atenção em tudo o que ele fazia. De repente, um trovão estrondou bem forte, quase derrubando o anjinho pulador, que foi logo reclamando:
- Mas que coisa mais desagradável! Será que eu poderia brincar sem levar sustos? Quem foi o anjinho levado que ligou o som a essa altura aqui no céu?
Para a surpresa do anjinho Astolfo a resposta veio como um trovão ainda mais forte, era o Papai do Céu que lhe falava:
- Anjinho lindo que tanto amo, você que é tão corajoso, que se equilibra nessas nuvens como nenhum outro anjinho sabe fazer, você que tem tanta energia angelical, que já aprendeu tanta coisa aqui no céu, chegou a hora de ganhar uma missão especial.
Claro que o anjinho ficou bem assustado, pois não era todo dia que se ouvia assim tão forte a voz do Papai do Céu, afinal Ele estava sempre de olho em todo mundo, cuidando de tudo, mas Deus prefere falar baixinho, no silêncio do coração das pessoas, na verdade Ele sabe que tem uma voz muito poderosa, por isso prefere ouvir mais e falar menos. Obediente que era, apesar das peraltices, Astolfo estava disposto a agradar ao Senhor, e respondeu com alegria:
- Sim, meu Deus! Estou prontinho para qualquer trabalho que o Senhor me confiar.
Deus então respondeu:
- Sua missão será na terra, alegrando as criancinhas. Você aceita?
Astolfo nem pestanejou e disse iluminado pela sua linda auréola que reluzia tanto quanto seus olhinhos emocionados:
- Claro, meu papaizinho, eu aceito.
Mal Astolfo respondeu àquela pergunta e sentiu imediatamente seu corpinho escorregando pelas nuvens branquinhas. Ele foi descendo como uma pluma, caindo devagarinho, e enquanto apreciava a vista linda lá do alto, pensava em como seria o lugar para onde Deus o estava levando... Confiava tanto no Criador que não teve medo nenhum. Algum tempo depois acordou sem suas asinhas, sem sua auréola dourada, com a pele um pouco mais bronzeada e cabelos como de menino da terra. Ele estava deitado num campo verdinho, à sombra de uma árvore frondosa. Vestido como um menino normal, ele olhou à sua volta buscando saber que lugar era aquele onde estava, foi quando ao longe ele avistou alguma coisa muito colorida que se sacudia fortemente ao vento. Não teve dúvidas, era um circo. Aproximou-se lentamente, até encontrar a porta principal, e foi entrando sem ser incomodado.
- Olá - gritou o menino-anjo - tem alguém aí?
Mas ninguém respondeu. Astolfo então foi entrando e ficou admirado com tudo o que via, o picadeiro era enorme, cheio de coisas grandes e coloridas, no alto haviam trapézios de uma altura impressionante e também pôde notar uma corda-bamba que atravessava o circo inteiro. Astolfo estava encantado... foi aproximando-se como que fascinado e começou a mexer em tudo o que via. Subiu no trampolim, deu piruetas no meio do picadeiro, fez estrelinhas, criou coragem e foi até lá no alto, pendurou-se no trapézio de ponta-cabeça, girou no ar, andou na corda bamba e quando se preparava para descer da sua aventura circense foi surpreendido com alguns poucos aplausos de uma plateia bem especial.
(palmas)
- Bravo! - Gritou o palhaço Cascatinha.
- Genial! - Bradou o mágico do circo.
- Quanta habilidade! Estou impressionada! - Disse a mulher barbada.
Astolfo não estava entendendo nada. Então pediu desculpas:
- Pessoal, eu não sabia que vocês estavam aí. Me desculpem por invadir assim o circo de vocês, é que eu fiquei...
Mas antes que Astolfo completasse a frase foi interrompido por Cascatinha:
- O que há garotinho? Nós adoramos assistí-lo. Onde foi que você aprendeu tanta coisa assim? Você é artista de circo?
- N-n-não... eu...
- Não importa - disse a mulher barbada - o importante é que você chegou aqui na hora certa, foi Deus quem te enviou menininho. Quer trabalhar conosco?
Quando ouviu aquelas palavras o menino-anjo não teve dúvidas, sabia que tinha ido parar ali a mando mesmo do Papai do Céu, então não havia porque recusar àquele convite tentador.
- Está bem. Eu aceito.
Pegando sua cartola mágica, o mágico do circo foi logo tirando coisas lindas para presentear Astolfo. A primeira a sair foi uma roupinha toda colorida de palhaço, depois veio uma peruca toda espivitada e por último um sapato gigantão desses que palhaço usa. Astolfo ficou muito feliz, mas não deixou de perceber o olhar triste do palhaço Cascatinha.
- O que foi Cascatinha, você não está feliz? - perguntou o anjinho.
- Não, é que... bem... eu... é que essas coisas eram do meu filho, o palhacinho bolotinha e... é que me deu uma saudade danada dos tempos em que ele podia usar todas essas coisinhas lindas...
- E por que ele não pode mais usá-las? - indagou o curioso anjinho.
Cascatinha começou a chorar. Então a mulher barbada explicou:
- Olha menino, é que o Bolotinha acidentou-se aqui no circo e agora não pode mais fazer graça, o circo já não é mais o mesmo sem ele. Precisávamos mesmo de um substituto, porque as crianças que vêm aqui adoravam vê-lo em cena. Já faz um tempão que ele está deitadinho na cama, triste, amuado, desanimado da vida, e não temos mais esperanças de que ele volte ao picadeiro.
- Nossa! Que coisa triste. Gostaria muito de conhecê-lo.
- Você irá conhecê-lo na hora certa - disse o mágico - agora vamos preparar a apresentação de logo mais.
Então foram surgindo por trás das cortinas pesadas vários personagens interessantes do circo, o malabarista com suas bolinhas encantadas que jamais caiam, a contorcionista que cabia numa caixinha pequenininha, o trapezista com músculos de aço pendurava-se de ponta-cabeça, girava e saltava no ar, o mágico tirava coelhos lindos de sua cartola, a mulher barbada girava no ar pendurada por malhas coloridas, o palhaço Cascatinha arrancava risadas de todos ali presentes. E o nosso pequeno Astolfo ficou encantado pela atmosfera maravilhosa do circo, inebriado com tanta beleza, tantas cores e tanta alegria, ganhou o apelido carinhoso de palhaço Fumacinha e ficou decidido que participaria de vários quadros, penduraria-se no trapézio, andaria na corda-bamba que era sua especialidade, faria graça junto com o palhaço Cascatinha e até sairira de dentro da cartola do mágico em um número novo que eles inventaram só pra ele. Tudo parecia perfeito, até que Fumacinha percebeu uma sombra que espiava por traz da lona, um olhinho triste que acompanhava todo o ensaio, não teve dúvidas, era o palhaço Bolotinha e correu até lá:
- Bolotinha!
O palhacinho doente levou um susto, não esperava ser encontrado ali no seu esconderijo:
- Q-quem é você? - perguntou intrigado.
- Sou o palhaço Fumacinha e vim para...
- Não precisa me dizer... eu já sei, você veio para ficar no meu lugar, eu sei que não sirvo pra nada mais... depois que caí do trampolim, meus pezinhos ficaram tortos e já não posso mais andar direito, também estou bem doente, tenho febre e muita tristeza...
- Ei, espere Bolotinha, você não pode ficar revoltado assim, pois existe um Deus tão grande e tão bonito cuidando de você.
Bolotinha revoltado respondeu:
- Então porque Ele mandou você em vez de cuidar de mim?
- Mas ele cuida, amiguinho. Confie n´Ele. Me conte uma coisa: o que eu poderia fazer para te deixar feliz, Bolotinha? Quero ser seu amigo, quero que você confie em mim.
- Ah! Ninguém pode me fazer feliz, a única coisa que me deixaria realmente feliz seria voltar ao picadeiro, voltar a ser o palhaço Bolotinha de antes...
E Bolotinha saiu chateado com aquela conversa. Mas Fumacinha, nosso anjinho Astolfo, já tinha um plano.
Quando a noite chegou, o público lotou o auditório do circo, muitas crianças vinham de várias localidades para conhecer o novo palhacinho. As luzes finalmente se acenderam e o espetáculo começou com muita alegria. Era possível notar a felicidade das crianças encantadas com tanta arte e beleza. Fumacinha foi a principal atração da noite. Para a surpresa geral, no número mais difícil que apresentaria, nosso anjinho pediu para falar ao microfone, e deixou a plateia e os amigos do circo ainda mais intrigados quando disse com voz confiante:
- Convido aqui o meu amigo, o melhor palhaço que já houve nesse circo, o mais esperto, o mais inteligente e bonito, o palhaço Bolotinha para andar comigo na corda-bamba.
Ouviu-se um longo "Ohhhhhhhh" por parte dos presentes. Todos sabiam que Bolotinha não conseguiria, como poderia andar na corda-bamba com seus pezinhos tortos? E fraquinho como ele estava, não seria capaz. O mágico tentou impedir a loucura, mas Cascatinha, confiando em Deus deixou seu filhinho subir.
A plateia ficou enlouquecida, entre preocupados e confiantes, aplaudiam com entusiasmo o pequeno Bolotinha. E agora era possível perceber um brilho diferente em seu olhar, ele estava encantado e realmente feliz de estar ali, sentia-se útil e importante novamente. De mãos dadas com nosso anjinho Astolfo se deixou levar confiante pela corda-bamba que balançava calmamente sentindo o peso dos dois novos amigos. Bolotinha sorria muito, não cabia em si de tanta felicidade. De repente, algo inesperado aconteceu, a corda começou a sacudir rapidamente e os dois corriam o risco de cair lá do alto. Foi quando Bolotinha fechou os olhos e disse para Astolfo:
- Estou pronto, amiguinho!
E como mágica duas asas gigantes brotaram nas costas de Astolfo e a mesma coisa aconteceu com o palhaço Bolotinha, duas asas imensas sairam de suas costas e quando começaram a cair da corda-bamba, bateram suas asas lindas e passaram a sobrevoar a plateia emocionada com tanta beleza. Aquela foi a noite mais especial e linda que o circo jamais viu. Fumacinha e Bolotinha voltaram a ser anjinhos de Deus, e voaram para fazer suas traquinagem e malabarismos lá no céu, felizes e agradecidos ao grande Criador que os deu a chance de alegrar muitas crianças aqui na terra.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Vida errante
Cyntia Pinheiro
Ontem, depois de quatro meses morando do outro lado da cidade, errei pela primeira vez o caminho de volta para casa. Só notei o tamanho da volta que eu havia dado quando, já chegando no apartamento em que vivemos por felizes sete anos, é que Samuel me acordou:
- Mãe, onde você tá indo?
Ops, era tarde. Agora teria que completar a volta na avenida toda pra retornar lá na frente e tomar o trajeto correto, rumo à "casa nova".
No caminho de volta, entre debochada e estupefata eu ria com o meu pequenino, achando graça da minha distração, mas enquanto isso, lá no fundo eu refletia sobre as voltas que a vida dá, ou as voltas que a gente dá na vida.
É bem conhecida a passagem bíblica em que Jesus, acolhendo Maria Madalena, profere as sábias palavras: "Atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado". Quem nesse mundo é capaz de dizer que jamais cometeu algum engano?
Eu erro muito. Erro o tempo inteiro. Mas trago no peito uma certeza tão plena quanto aquela de quando eu dirigia para o antigo apartamento: eu erro querendo acertar. E trazendo isso para a linguagem do Direito: erro culposamente, sem dolo.
Penso que ninguém erra por dolo, mas descubro um segundo depois que não é bem assim, tal pensamento por si só consiste em um erro. Há pessoas nesse mundo que são mal intencionadas, cometem erro com total responsabilidade sobre ele, plenamente lúcidos do que fazem e sem o menor escrúpulo nem impulso inibidor.
Não é o meu caso. Definitivamente não é. Digo isso com toda a pureza do meu coração. Falho porque sou humana, cheia de defeitos, mas não tenho "aquela" maldade de fazer algo para prejudicar alguém ao bel prazer...
Em meus devaneios na volta para casa fiquei pensando ainda sobre a situação do planeta em que vivemos, da forma como vivemos e cheguei à conclusão de que deve existir nesse universo tão grande algum lugar melhor do que esse aqui. Onde os habitantes não careçam de armas para se defender, não precisem de muros para se esconder, não precisem de mentiras para vencer, não precisem se agredir.
Enfim, não havendo muito o que fazer por hora, vou continuar o meu caminho errando, falhando - especialmente com quem amo - mas querendo acertar a cada dia para um dia merecer um lugar melhor no futuro, onde eu não erre mais.
Ontem, depois de quatro meses morando do outro lado da cidade, errei pela primeira vez o caminho de volta para casa. Só notei o tamanho da volta que eu havia dado quando, já chegando no apartamento em que vivemos por felizes sete anos, é que Samuel me acordou:
- Mãe, onde você tá indo?
Ops, era tarde. Agora teria que completar a volta na avenida toda pra retornar lá na frente e tomar o trajeto correto, rumo à "casa nova".
No caminho de volta, entre debochada e estupefata eu ria com o meu pequenino, achando graça da minha distração, mas enquanto isso, lá no fundo eu refletia sobre as voltas que a vida dá, ou as voltas que a gente dá na vida.
É bem conhecida a passagem bíblica em que Jesus, acolhendo Maria Madalena, profere as sábias palavras: "Atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado". Quem nesse mundo é capaz de dizer que jamais cometeu algum engano?
Eu erro muito. Erro o tempo inteiro. Mas trago no peito uma certeza tão plena quanto aquela de quando eu dirigia para o antigo apartamento: eu erro querendo acertar. E trazendo isso para a linguagem do Direito: erro culposamente, sem dolo.
Penso que ninguém erra por dolo, mas descubro um segundo depois que não é bem assim, tal pensamento por si só consiste em um erro. Há pessoas nesse mundo que são mal intencionadas, cometem erro com total responsabilidade sobre ele, plenamente lúcidos do que fazem e sem o menor escrúpulo nem impulso inibidor.
Não é o meu caso. Definitivamente não é. Digo isso com toda a pureza do meu coração. Falho porque sou humana, cheia de defeitos, mas não tenho "aquela" maldade de fazer algo para prejudicar alguém ao bel prazer...
Em meus devaneios na volta para casa fiquei pensando ainda sobre a situação do planeta em que vivemos, da forma como vivemos e cheguei à conclusão de que deve existir nesse universo tão grande algum lugar melhor do que esse aqui. Onde os habitantes não careçam de armas para se defender, não precisem de muros para se esconder, não precisem de mentiras para vencer, não precisem se agredir.
Enfim, não havendo muito o que fazer por hora, vou continuar o meu caminho errando, falhando - especialmente com quem amo - mas querendo acertar a cada dia para um dia merecer um lugar melhor no futuro, onde eu não erre mais.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Letras dos amigos
Esses dois versinhos me foram enviados por Damião Cordeiro,o Poeta do Acaso, achei de uma lindeza sem tamanho, que resolvi compartilhar com vocês, espiem só:
"Quem quiser plantar saudade
Escalde bem a semente
Plante num lugar bem seco
Onde o sol seja bem quente
Porque se plantar no molhado
Quando crescer mata a gente."
ANTÔNIO PEREIRA
"Aconselhado pelo poeta Antônio Pereira
Dele, à risca pus em prática a receita,
Fervi a semente em alta temperatura,
E pra não sentir o fel que viria em deleita
No Saara enterrei-a numa imensurável fundura,
Portanto, da saudade nenhuma colheita."
O POETA DO ACASO.
"Quem quiser plantar saudade
Escalde bem a semente
Plante num lugar bem seco
Onde o sol seja bem quente
Porque se plantar no molhado
Quando crescer mata a gente."
ANTÔNIO PEREIRA
"Aconselhado pelo poeta Antônio Pereira
Dele, à risca pus em prática a receita,
Fervi a semente em alta temperatura,
E pra não sentir o fel que viria em deleita
No Saara enterrei-a numa imensurável fundura,
Portanto, da saudade nenhuma colheita."
O POETA DO ACASO.
domingo, 11 de setembro de 2011
Carta ao Vinícius
Cyntia Pinheiro
Sinto um peixinho dando piruetas na minha barriga. É o Vinícius!
Esse menininho amado, que chegou de mansinho, sem alarde, quando ninguém esperava, e trouxe uma chuva de bênçãos e felicidade para a nossa vida!
Fico imaginando seu rostinho pequenino, será que vai ter o bocão da mãe ou os olhinhos cor de mel? Será que vai ter o cabelo pretinho do pai?
Estamos sonhando com o Vinícius que vai trazer uma grande mudança para a nossa rotina, para os nossos hábitos, para tudo o que está prontinho, cheio de regras, construído. Vinícius vem para desconstruir e refazer, vem para colorir, vem para animar, vem para trazer muito mais felicidade!
Será uma festa! Dois rapazes lindos em casa, aliás, dois não, três, porque o papai também conta. E a gente vai jogar bola juntos, vamos soltar pipa, tomar sorvete, cantar, dançar, fotografar, filmar, correr, cheirar, amar, amar, amar... tô até com pena desse pequeno, porque vou apertá-lo tanto, cheirá-lo tanto!
Querido filho, só peço a Deus que você venha com saúde, e tenha um coraçãozinho tão puro e bom quanto o do Samuel, disposto a ser educado no bem, na retidão, na fé Cristã, na caridade, enfim, que você também venha sob medida, porque se vamos ou não amar você? Nem preciso responder! Você já é um menino amado, desejado, bem-vindo, querido, abençoado!
Com todo amor,
Mamãe.
Sinto um peixinho dando piruetas na minha barriga. É o Vinícius!
Esse menininho amado, que chegou de mansinho, sem alarde, quando ninguém esperava, e trouxe uma chuva de bênçãos e felicidade para a nossa vida!
Fico imaginando seu rostinho pequenino, será que vai ter o bocão da mãe ou os olhinhos cor de mel? Será que vai ter o cabelo pretinho do pai?
Estamos sonhando com o Vinícius que vai trazer uma grande mudança para a nossa rotina, para os nossos hábitos, para tudo o que está prontinho, cheio de regras, construído. Vinícius vem para desconstruir e refazer, vem para colorir, vem para animar, vem para trazer muito mais felicidade!
Será uma festa! Dois rapazes lindos em casa, aliás, dois não, três, porque o papai também conta. E a gente vai jogar bola juntos, vamos soltar pipa, tomar sorvete, cantar, dançar, fotografar, filmar, correr, cheirar, amar, amar, amar... tô até com pena desse pequeno, porque vou apertá-lo tanto, cheirá-lo tanto!
Querido filho, só peço a Deus que você venha com saúde, e tenha um coraçãozinho tão puro e bom quanto o do Samuel, disposto a ser educado no bem, na retidão, na fé Cristã, na caridade, enfim, que você também venha sob medida, porque se vamos ou não amar você? Nem preciso responder! Você já é um menino amado, desejado, bem-vindo, querido, abençoado!
Com todo amor,
Mamãe.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
O enterro do João
Cyntia Pinheiro
Segue o corpo no caixão. Mortinho da Silva! O tal do João.
As alças de bronze reluzem ao sol forte da rua quente, meio-dia. Seis corajosos homens o carregam, solenes. Talvez sejam ali os únicos suficientemente parrudos, para aguentarem o peso de defunto misturado à quentura do inferno poeirento da rua.
Meninos alheios soltam pipa sorridentes na esquina, e deixam o brinquedo oscilando no vento, perdem um pouco da atenção observando o cortejo fúnebre, enquanto as velhas desdentadas entoam o "a nós descei divina luz", quase em forma de canto-chão.
A viúva num choro convulsivo é conduzida por um filho adulto, e o catarrentinho menor vai no colo da mais moça. O homem de branco se aproveita para enlaçar a jovem órfã sob seus braços peludos e empoeirados.
Passa um carro de som no cruzamento e ao microfone ouve-se: "galinhas gordas, galinhas sadias, dez reais, promoção do dia". Uma velha rechonchuda e de voz forte começa um canto diferente, quase geme para tirar o "avé-avé-avé-maria..." enquanto é seguida pelo sanfoneiro solitário e careca que se junta ao cortejo.
Já no cemitério o padre borrifa umas águas bentas no caixão aberto do defundo e encomenda a alma, e depois joga as águas também no povo que o assiste. A moça coloca o catarrentinho do chão e se joga sobre o pai gritando: "Levanta, pai!"
O povo se comove e chora, agora cada vez mais alto. A cantoria para. Só a gorda da vozona não chora, mas parece engasgada. O catarrentinho abraça a perna da mãe e pede pra mijar, ninguém ouve o menino. O caixão é fechado. A viúva grita e desmaia. É amparada pelo filho mais velho. O pequeno grita: "quero mijar, quero mijar", mas ninguém escuta o menino. O caixão desce à cova, a filha joga um punhado de terra e enfia a cara no resto do monte de terra que ficou no chão, descabelada e com a boca espumando grita cada vez mais alto: "Levanta, pai". Mas o defunto nem lhe dá ouvidos. A primeira pá de terra é jogada. Sobe um poeirão avermelhado, a velha gorda da voz grave espirra, a magrela da dentatura lacrimeja, e a segunda pá de terra é lançada sob protestos da filha estérica. A mãe continua desacordada. O desespero começa mais uma vez a tomar conta do lugar, todos com pena da filha desolada, mas antes que se lançasse a terceira pá de terra, um jato de água surge no nada. O catarrentinho sem pudores, põe o pinto pra fora e mija, no caixão do pai, e olha para a irmã que assiste a cena impressionada, balança a cabeça com um olharzinho inocente e fala: eu avisei.
Segue o corpo no caixão. Mortinho da Silva! O tal do João.
As alças de bronze reluzem ao sol forte da rua quente, meio-dia. Seis corajosos homens o carregam, solenes. Talvez sejam ali os únicos suficientemente parrudos, para aguentarem o peso de defunto misturado à quentura do inferno poeirento da rua.
Meninos alheios soltam pipa sorridentes na esquina, e deixam o brinquedo oscilando no vento, perdem um pouco da atenção observando o cortejo fúnebre, enquanto as velhas desdentadas entoam o "a nós descei divina luz", quase em forma de canto-chão.
A viúva num choro convulsivo é conduzida por um filho adulto, e o catarrentinho menor vai no colo da mais moça. O homem de branco se aproveita para enlaçar a jovem órfã sob seus braços peludos e empoeirados.
Passa um carro de som no cruzamento e ao microfone ouve-se: "galinhas gordas, galinhas sadias, dez reais, promoção do dia". Uma velha rechonchuda e de voz forte começa um canto diferente, quase geme para tirar o "avé-avé-avé-maria..." enquanto é seguida pelo sanfoneiro solitário e careca que se junta ao cortejo.
Já no cemitério o padre borrifa umas águas bentas no caixão aberto do defundo e encomenda a alma, e depois joga as águas também no povo que o assiste. A moça coloca o catarrentinho do chão e se joga sobre o pai gritando: "Levanta, pai!"
O povo se comove e chora, agora cada vez mais alto. A cantoria para. Só a gorda da vozona não chora, mas parece engasgada. O catarrentinho abraça a perna da mãe e pede pra mijar, ninguém ouve o menino. O caixão é fechado. A viúva grita e desmaia. É amparada pelo filho mais velho. O pequeno grita: "quero mijar, quero mijar", mas ninguém escuta o menino. O caixão desce à cova, a filha joga um punhado de terra e enfia a cara no resto do monte de terra que ficou no chão, descabelada e com a boca espumando grita cada vez mais alto: "Levanta, pai". Mas o defunto nem lhe dá ouvidos. A primeira pá de terra é jogada. Sobe um poeirão avermelhado, a velha gorda da voz grave espirra, a magrela da dentatura lacrimeja, e a segunda pá de terra é lançada sob protestos da filha estérica. A mãe continua desacordada. O desespero começa mais uma vez a tomar conta do lugar, todos com pena da filha desolada, mas antes que se lançasse a terceira pá de terra, um jato de água surge no nada. O catarrentinho sem pudores, põe o pinto pra fora e mija, no caixão do pai, e olha para a irmã que assiste a cena impressionada, balança a cabeça com um olharzinho inocente e fala: eu avisei.
Amor pequenino
Cyntia Pinheiro
Amor não há maior
Que o pequenino.
Fruto de si mesma
Gerado dentro.
Feito pedaço da gente
Feito outra gente.
Da gente.
Amor maior que esse
Só Deus sabe dizer se tem.
E se tem é porque vem do próprio Deus!
Amor não há maior
Que o pequenino.
Fruto de si mesma
Gerado dentro.
Feito pedaço da gente
Feito outra gente.
Da gente.
Amor maior que esse
Só Deus sabe dizer se tem.
E se tem é porque vem do próprio Deus!
O selo do amor
Cyntia Pinheiro
Teu olhar grava em meu corpo
O selo de tua paixão
Os graves desejos secretos
Dos dias de solidão.
Feito flor desabrochada
Aberto o peito e a ternura
Das noites fortes e belas
Da entrega de toda candura.
O amor feito carne
Devolvendo o selo da mão
Sangrando o alvoroçar da noite
Em suave despertar de clarão.
E a brisa empalidece os cabelos
Umedecidos da chaga estampada
Querendo mais de teu corpo
Enquanto houver madrugada.
O corpo é pouco para a noite
E a noite é refresco ao desejo
Lentamente se refaz a calma
Na doce entrega do beijo.
O selo gravado está
Para sempre o amor verdadeiro
No seio o fruto querido
E a doce lembrança do outeiro.
O amor se expressa na alma
E no corpo se faz companheiro
O sentimento explode em cantigas
Do desejo de ser tua por inteiro.
Teu olhar grava em meu corpo
O selo de tua paixão
Os graves desejos secretos
Dos dias de solidão.
Feito flor desabrochada
Aberto o peito e a ternura
Das noites fortes e belas
Da entrega de toda candura.
O amor feito carne
Devolvendo o selo da mão
Sangrando o alvoroçar da noite
Em suave despertar de clarão.
E a brisa empalidece os cabelos
Umedecidos da chaga estampada
Querendo mais de teu corpo
Enquanto houver madrugada.
O corpo é pouco para a noite
E a noite é refresco ao desejo
Lentamente se refaz a calma
Na doce entrega do beijo.
O selo gravado está
Para sempre o amor verdadeiro
No seio o fruto querido
E a doce lembrança do outeiro.
O amor se expressa na alma
E no corpo se faz companheiro
O sentimento explode em cantigas
Do desejo de ser tua por inteiro.
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