terça-feira, 13 de julho de 2010

África 2010 e a voluntária de Deus no inferno

Cyntia Pinheiro



Fez uma viagem para "além-mar", África do Sul, cujo objetivo era assistir à Copa do Mundo de 2010.

Mas o avião quebrou em um outro aeroporto, a oeste no continente, e foram obrigados a pernoitar em uma cidadezinha nigérrima, misérrima, contrastante com o evento tão grandioso.

Lá chegando, ela encontrou tantos africanóides, nada sulistas, morrendo de fome nas bandas pobres, perto de esgotos podres, costelas a mostra, cara de morte, morte, malfadada sorte.

Pensou em não embarcar. Talvez ali pudesse ser mais útil. Questionou a utilidade de tanta farra futebolística, era só uma bola e algumas coxas grossas correndo na grama verdinha e nova dos estádios luxuosos.

Ali a pobreza era proporcionalmente gritante, escandalosa, opositora a tanta ostentação desportiva, que naquele momento julgou sem nexo, sem razão de ser.

Passou a mão pela testa acreditando que o gesto poderia afastar o pensamento tão desconfortável, mas ele não se moveu dali, estava determinado a lhe fazer desistir de seguir viagem. E ela desistiu.

Na manhã seguinte comunicou à empresa de turismo que não seguiria viagem com os demais, decidiu ficar na Nigéria, para sempre.

Limpou a bunda de meninos negros esqueléticos e aidéticos, trocou curativos de mães cadavéricas, participou de movimentos humanitários, se envolveu com aquele povo de um jeito que passou a pertencê-lo.

A copa do mundo terminou, seu país perdeu, todos voltaram para casa, sem encontrar o sentido daquela viagem desperdiçada com algazarra, vuvuzelas barulhentas, promiscuidade e vazio interior.

A jovem médica que permanceu nas bandas pobres da África começou a viver naquele dia em que o avião quebrou. Encontrou ali o inferno na terra, e viu que no inferno poderia ser útil, como voluntária de Deus.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Amigas

Cyntia Pinheiro


Flávia para minhas tardes
Sol de noite sorrindo
E desmanchando-se em carinho
Thiara peculiar


Vera é imprescindível
Glaucy saudade bem grande
Manu igualmente querida
Fernanda sensata e amiga


Klauren por nossos filhos
Gedey mergulhou em meu ser
Júnia para sorrir
Viviane para eu torcer


Babi justa e franca
Lôra afinidade
Todas contemporâneas
Todas amigas de verdade!

domingo, 27 de junho de 2010

Rogai a vós, os que interrompem a nós!!!

Cyntia Pinheiro



Não existe coisa mais deselegante e desagradável do que um terceiro que chega e interrompe um diálogo. O tempo inteiro, todos os dias, há pessoas que fazem isso e nem percebem. Eu já fiz parte desse time, hoje tento não fazer isso com as pessoas, embora sempre façam isso comigo.

O papo está bom, interessante, empolgante e chega um desavisado, interrompe o papo, geralmente pra falar de assunto diverso e nem desconfia. Quando esse terceiro dá o seu recado rapidinho e sai a gente releva, mas quando o infeliz insiste em não sair de perto, continua falando sem parar e você e seu amigo tentando concluir o papo e não podem, ahhhhhhhhh... Aí é demais!

Eu era adolescente e tinha o hábito de pedalar com as amigas nas ruas planas de Taiobeiras. Nossa turminha de amigas era bem grande e sempre saíamos em bando, geralmente eu, Flávia, Nete, Selma, Aline, Hélvia, Marisa, Alessandra, Edinéia e Gisele (me perdoem se deixei alguém de fora). Mas para pedalar nem sempre todas estávamos juntas, o grupo geralmente era menor, somente as quatro primeiras, sobre quem falarei um pouco mais agora.

Adorávamos comer pipoca feita no fogão de lenha, com banha de porco, na porta da casa de Selminha, Dona Terezinha sempre nos recebia muito bem; Na casa de Nete aprendíamos a bordar com ajuda de Anita e passávamos tardes agradabilíssimas também; A casa de Flávia era a mais impecável em organização, lá eu tinha trânsito livre, pois éramos todos como uma só família, crescemos juntas e morávamos uma em frente à outra, Leni sempre fazia bolos gostosos para o café da tarde; Na minha casa a gente se reunia para dançar, pois talvez eu tivesse a maior sala de visitas, então empurrávamos os móveis e passávamos tardes inteiras ao som de Débora Blando fazendo ensaios intermináveis.

Mas havia uma casa que era excelente para as nossas reuniões, a casa de Gisele. Antonina, mãe da nossa colega, era uma figurinha fantástica. Tinha uma voz exótica, que eu sempre imaginei que seria adequada para a dublagem de desenhos animados ou fantoches. Ela talvez tenha a sido a mãe que mais se envolveu com nossa turma, talvez porque também fosse professora no colégio onde estudávamos. Na casa de Gisele aconteciam as farrinhas, os trabalhos, os ensaios para as nossas apresentações, as reuniões mais importantes que fizemos naquela época jovial. Lá comi cuscuz pela primeira vez, pintamos vestidos para a gincana folclórica, confeccionamos flores de tecido, elaboramos apresentações teatrais incrivelmente lindas e inesquecíveis, tudo sob a tutela da adorável Antonina.

Todas nós tínhamos muita liberdade nas casas umas das outras, e nossas mães foram ótimas parceiras no período estudantil. Foi um período de intercâmbio maravilhoso entre nossas famílias, um tempo saudoso, de grandes recordações.

Chegávamos em casa de Antonina a qualquer hora do dia e éramos absolutamente bem recebidas, o mesmo se dava com Anita e D. Terezinha, as três mães que mais visitávamos.

Em uma tarde de sábado, o quarteto sob duas rodas decidiu fazer uma visitinha à nossa amiga e líder Gisele e como era de praxe chegamos sem avisar. Estranhamente Antonina estava um pouco mais séria, mas não menos simpática, assim como a filha. Sem percebermos um provável inconveniente, eu e minhas parceiras de pedaladas entramos, sentamos no sofá, conversamos sobre vários assuntos, pedimos pra Gisele fazer pipoca, tomamos suco e só depois de aproximadamente uma hora de papo, percebemos que elas realmente estavam diferentes, pareciam querer muito que desconfiássemos de algo.

Então, desconfiada, eu chamei as colegas para irmos embora, ao que a engraçada Antonina falou:

- Não, agora vocês não vão embora não, quando vocês chegaram nós estávamos rezando o terço, pois podem terminar de rezar com a gente.

Ficamos constrangidíssimas, mas não fomos capazes de recusar o convite inusitado. Permanecemos ali por mais uns quarenta minutos rezando o terço, sem saber se fechávamos os olhos pra nos concentrarmos na reza ou se pra escondermos o rubor de nossos rostos envergonhados.

Nunca mais chegamos em casa de ninguém sem avisar, hoje eu não faço isso sob hipótese nenhuma, aliás, coisa rara é eu visitar alguém sem ser convidada. Quanto a interromper a conversa alheia, aprendemos mais do que isso, afinal interrompemos o terço alheio! Quer coisa mais desagradável?

Salve Antonina e sua criatividade!

terça-feira, 15 de junho de 2010

DESCONEXOS

Cyntia Pinheiro



Côncavos orifícios
Botão de flor
Jardins de auspícios
Eu, de (S) amor.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Decepção

Subi tão alto pra ver você,
Que quando caí, me machuquei...
Simples assim.

sábado, 22 de maio de 2010

Biombo dialético

Cyntia Pinheiro

Por trás do biombo dialético
Dois estranhos trepam.
Orgasmo linguístico!
Não há sexo.
Só há versos.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Terça a tarde

Cyntia Pinheiro

De um verso apaixonado
Brota o úmido veio do amor
Cristalinamente o olhar cândido me fita
Pela tela inerte do meu computador

Imagino-te a galope
Viril sorriso e dolorosa morte
Que uma fantasia quase viva
E de omissa gravidade fala da minha sorte

Nem mil beija-flores possuem a festa
De tamanha embriaguez do mel de teus lábios
Como se de tempos pregressos eu pudesse
Tocar teu busto tosco e segregado

E nem na foice da morte és desventura
Partindo tão cedo para as paragens eternas
Rubro calor de meu rosto febril
Etéreas manhãs, medos e desejos estéreis

Farta mão sobre o meu corpo descobre
Coloridos sentidos e toda minha calma
Possuindo-me nua em tuas carnes de ouro
Calando o tempo no abismo da alma

E na vaziez de minhas entranhas
Dois desconhecidos se extasiam
Não é sexo, não é corpo
É a descoberta da poesia.