quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A baratinha

Cyntia Pinheiro

(Para os pequenos)

Era uma vez uma baratinha tonta
Que vivia a perambular
Pelas delícias da cozinha
Toda noite, sem parar.

Espertinha não saía de dia
Pois sabia que seria descoberta
Tinha medo era da chinelada
Que levaria no casco, na certa.

Gostava de lamber os quindins
E os restinhos de açúcar do chão
Fechava sempre os olhinhos
E lambia os beiços quando tinha pão.

Ah! Bom mesmo era achar comida
Frango, arroz e macarronada
Comia até não poder mais
E até dormia com a barriga inchada.

Só que barata é bicho atrevido
Que os humanos não gostam de ver
Exterminam sem piedade
Ainda mais se ela cai no purê.

E assim se acabava a barata
Ficou presa e não pôde sair
Enganchada naquela papa
E ali é lugar de cair?

A mamãe gritou de raiva
"Jogar tanta comida no lixo
Desperdício insuportável,
Mas ninguém vai comer com esse bicho!"

O papai deu muita risada
"Bem feito barata tonta
Quem mandou cair na panela?
Nem pra lamber só a tampa."

Eu fiquei quieto em meu canto
Pois descobri um segredinho, enfim
Enquanto o purê ia pro lixo
A baratinha piscava pra mim.

Dona Jacaré

Cyntia Pinheiro

Dona Jacaré
Vaidosa que ela só
Saiu pra comprar cosméticos
Batom, rímel e pó

A vendedora Tartaruga
Quase lhe convencia
"Esse creme hidratante
Deixa a pele bem macia"

Dona Jacaré não é boba
Sabe do couro bom que tem
"Passar creme pra quê?
Ser cascuda me cai bem"

"Ah! Dona Tartaruga
Beleza boa é natural
Com um retoque leve e suave
Vou ficar sensacional"

Dona Tartaruga experiente
Tirou do casco uma novidade
"Veio de Paris esse perfume
E está com preço de oportunidade"

Dona Jacaré, por sua vez
Já comprara o que queria
Mas o perfume era agradável
Por um trocado o levaria

Chegou em casa toda contente
De pó, rímel, perfume e batom
Seu Jacaré foi logo notando:
"Hum! Mas que cheirinho bom!"

Sorrindo de orelha a orelha
Dona Jacaré se aproximou
Para fazer um carinho
No Jacaré que exclamou:

"Ué! Que pele seca!
Podia ao menos incrementar
Nessa loja não vendia creme
Para a pele amaciar?"

Ah! Dona Jacaré ficou chateada
Pois caprichara do visual
Não imaginava que o marido
Reclamaria ao final.

Mas decidiu não se importar:
"Homem nunca está satisfeito"
E não comprou creme nenhum
"Sou bonita de qualquer jeito!"











quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Ter coragem

Cyntia Pinheiro

Tenho uma prima, chamada Cleiziane, com quem convivi muito na década de 90, quando nós duas fomos colegas de sala enquanto cursávamos o magistério na Escola Estadual Oswaldo Lucas Mendes em Taiobeiras/MG. Éramos unha e carne, sentáva-mo-nos sempre com as mesas juntas, conversávamos muito e éramos consideradas ótimas alunas.

Ela me ensinou muitas coisas interessantes, como por exemplo, gostar de rock, escrever letras desenhadas e rir muito da vida. Mas uma coisa ela fez por mim um dia, que talvez nem se recorde mais, porém foi de grande importância e que carrego até hoje comigo.

Um dia cheguei em casa e ao entrar em meu quarto, havia um pirulito grande em cima da minha cama, colado nele um bilhete que dizia: " Nunca pule num monte de folhas com um pirulito na mão. Assinado: Linus vem que tem."

Aquele bilhete me intrigou num primeiro momento, mas logo tive certeza de que era coisa dela, a melhor prima-amiga sempre apronta dessas coisas... Fui perguntar a ela quem era o tal "Linus vem que tem" e fui informada de que se tratava do Linus, melhor amigo do Charlie Brown e que ela havia assisido a um episódio em que o Linus falava isso para o Charlie.

Gostei, degustei e adorei a surpresa. Só não imaginava que quase duas décadas depois aquelas palavras ecoariam em meus ouvidos. E tudo isso porque eu me joguei no monte de folhas com o pirulito todo lambido na mão. Sempre me lanço de olhos fechados e descobri que isso me faz bem.

Descobri que sou corajosa, atrevida e não tenho medo de nada, porque carrego comigo uma fé bem grande. Ao pular no monte de folhas de todas as profissões que tive e tenho, fechei os olhos e fui com uma fé enorme no Criador, só colhi frutos bons, algumas folhinhas secas me pegaram, é verdade, mas em outras situações meu pirulito saiu ileso dali.

Hoje eu digo sem pudores e sem falsa modéstia, estou me tornando escritora por amor, sempre fui professora por vocação, sou maquiadora por vontade, sou mãe por talento, serei jurista por paixão e se eu sou tudo isso, ou se aos olhos de alguns não sou o "ó do borogodó", o importante é que eu tive coragem de me lançar no monte de folhas, ainda que folhas secas quisessem aderir ao meu pirulito, isso faz parte da vida, vida essa que eu quero viver, com folhas ou sem folhas, mas com o sabor de quem deseja sempre experimentar.


17/10/2012



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A única coisa que a gente tem na vida é o pescoço

Cyntia Pinheiro

Outro dia meu filho de cinco anos nos saiu com essa: "Pai, a única coisa que a gente tem na vida é o pescoço." Preocupado em justificar o sentido da frase depois de ouvir gargalhadas incontroláveis da mãe e do pai, emendou: "É porque se cortarem nosso pescoço a gente morre, ué, o pescoço é muito importante." Ainda gargalhávamos enquanto ele insistia: "O pescoço é importante, gente, pois ele vira a cabeça de um lado para o outro, ué."

Enfim, controlamos o riso e concordamos, de fato, o pescoço é muito importante. Entre uma ponderação e outra eu ainda explodia numa gargalhada escandalosa que deixava meu pequenino meio sem graça. Mas depois ele entendeu que a frase foi interessante e até mesmo engraçada, por isso rimos tanto, não ríamos dele, mas da frase.

Tal frase me fez recordar uma aluna de canto que tive comigo por três anos, a Suely, uma senhora animada, professora aposentada, de voz doce e melodiosa, afinadíssima e muito dedicada. Além de todos esses predicados musicais, Suely era uma mulher sábia, uma matriarca. Contava-nos sempre suas aventuras em família e, especialmente, sua perspicácia ao lidar com os genros e noras.

Certa vez, ela disse a mim e às suas colegas de canto, que nós mulheres devemos "encher a bola" dos nossos maridos, dizer a eles que eles são muito importantes na casa, e devemos ser bem convincentes para que a autoestima deles fique elevada. Segundo Suely o homem deve acreditar piamente de que ele é a cabeça da família, sendo a cabeça é ele quem conduz todas as coisas, coordena, lidera, mas o homem jamais deve perceber que por trás disso tudo está a mulher, e ele não deve nunquinha descobrir que a mulher é o pescoço, afinal é o pescoço que move a cabeça e a faz olhar na direção que só ele, o pescoço, orienta.

Assim, quis ela dizer que, o homem deve ser encorajado a ser o chefe do lar, sem nunca descobrir que quem manda mesmo é a mulher, porque o homem é a cabeça, mas a mulher é o pescoço, e a cabeça só olha pra onde o pescoço quer.

Concluí que meu pequenino estava certo, a única coisa que a gente tem na vida é o pescoço, afinal o que seria da cabeça sem ele??????

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Letras dos amigos

Quem é Damião Cordeiro? Ele se autodenomina de "O Poeta do Acaso", mas não foi por acaso que um dia eu pedi ao Délio Pinheiro - nosso amigo em comum - que falasse com o Damião para me aceitar como sua amiga no orkut, foi porque me encantei com sua escrita. E ele, generoso que é, me mandou um monte de coisas suas para eu ler. Li tudo, tudinho mesmo, gosto de receber textos no papel, gosto de tocar no papel e adoro ler Damião. E estou sempre recebendo textos dele para ler, leio com carinho e quando eu crescer quero ser igual a ele, que é um poeta com o condão de nos fazer enxergar, sentir aromas, sabores e tudo o mais através da mágica de suas letras certeiras, leiam com carinho, com vocês Damião Cordeiro, o Poeta do Acaso!!! 
 
 
DOENÇA DA CARNE: AMOR DOENTIO


Lá, onde a aurora soltava maravilhoso doirado cacho, mas, todo ouro belezura crepusculava no efêmero, carnalmente, sobrevivia a estonteante Lia socada numa tirinha de lugar, entre a escravatura corporal e o desleixo do espírito. Lá, lá, bem no epicentro lamacento e encharcado em dor chumbo. Também, amar daquele tanto era de doer. Uma enfermidade fincada no rijo da carne. Lia carregava um grande amor transbordante que não cabia na caixa do peito dela. Lia, uma quase sem-terra que ao mesmo tempo era mulher-matéria devoluta, terra de ninguém, terra de todos. Lugar onde qualquer um pisoteava, fazia lama e não deixava sequer uma marca de amor.

Essa tal de Lia era analfabeta, mas, muito lida em anúncios privês. Lia era (muda calada), porém, trazia o sexo na ponta da língua. Exímia leitora, Lia lia com a ponta da língua e com todos os olhos e com todas as bocas. Enfim, com todos os poros do seu corpo sovelado e esburacado pelos ferrões da macheza. (Amar dói muito), um “entregar-se” desmedido. Lia lia demais. Lia amava demais, Lia, boa Lia! – Um poço de bondade - Lia lia demais. Lia amava demais. Lia, demais !!! Lia, demais!!! assim, cinicamente, diziam os insaciáveis garanhões fedorentos, esses doentes compulsivos doidos por prazeres inventados. Lia amou demais, mas, pegou doença do mundo. Coitada, Lia, uma mulher muito lida em anúncios privês, uma mulher tão prestativa e tão dada facilitou e não pôde ler o receituário da vida: PREVINA-SE CONTRA O ÓDIO DO MUNDO!

Era eu Lia, uma mulher de mil gostos, uma mulher de mil homens, fui reduzida em desgostos, minha causa mortis – disse Maria da Assumpção ao dar com o chaveiro celestial à porta do grande Salão da Claridade cantarolando um hino de louvor e pinicando na viola de São Gonçalo. Bonachão e acudidor de gente em hora de agoniada precisão, mesmo com a voz desafinada e de olhos acrescidos, prontamente, São Pedro acudiu: entre minha filha, entre. Não precisa tirar toda a sua... culpa. Não carece debulhar rosários e mais rosários de íntimas particularidades em confissões desnecessárias. Poupe-me dos detalhísmos descritivos, não posso mais cair em tentação, e outra, tenho cargo de confiança, por isso, não vou negar o meu fidedigno voto de castidade. Espiritualmente, recebi o seu curriculum vitae, já sei de tudo na ferida viva do meu coração, por isso tudo, não precisa ficar mais na salmoura do purgatorium encardido, pois é dele que acaba de sair. Limpa, sarada e distante dos assédios dos grileiros de sentimentos, Assumpção pisou no que é dela de direito, assim que recebeu das santas mãos do Pai supremo a sagrada escritura do latifúndio eternidade...

Damião Cordeiro - o Poeta do Acaso.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Campeonato no céu


Cyntia Pinheiro
Para os meus filhotes
28/06/2012


Um dia lá no céu
Deus teve uma ideia legal
Fazer um campeonato
Para o mundo animal

Dessa vez só as aves
Poderiam participar
Em várias categorias
Desde as do solo até as do ar

Somente machos de inscreveriam
Pássaros canoros ou elegantes
Cada qual mostrando sua arte
Ou algum talento bem importante

Para a festa veio o peru
Concorrendo com o galo e o pavão
Com sua gravata bem vermelhinha
E sua cara de bonachão

A galinha já comentava
O galo será o campeão
O peru é muito empolado
E é exagerado esse tal de pavão.

Na ala dos cantores
O chilrear do curió
Fez o canarinho pensar
Que o sabiá lhe dava dó

Mas a torcida feminina
Era coisa muito séria
Dona canária bem dedicada
Estava quase ficando histérica

Mas não seria moleza
O júri estava afiado
Querubins alados notavam
Cada detalhe preparado

Depois do desfile das aves do chão
Houve uma grande revoada
A ave que voasse mais bela
Haveria de ser premiada

Do albatroz à gaivota
Asas bem grandes no céu batendo
Da jacutinga tenho saudade
Voos bem leves por sobre o vento

Cada categoria passava agora
Por uma grande seleção
Aves do céu e aves do solo
Não estavam brincando não

Arara, tucano e beija-flor
Na categoria dos mais belos
Águias, gaviões e corujas
As de rapina travavam um duelo.

Do primeiro grupo foi eleito o pavão
Para desconforto da galinha
Pois o galo era o favorito dela
E o peru nem chance tinha

Quanto aos cantores canarinho, sabiá e curió
Difícil mesmo foi escolher
Mas pelos melismas muito bem feitos
Canarinho teve mesmo que vencer

Na categoria de voo bonito
Levou a melhor a Jacutinga
Albatroz e Gaivota gritaram: “Marmelada!
Só ganhou porque está quase extinta.”

Apesar das cores vivas
Arara e Tucano foram desclassificados
Pois a sutileza do beija-flor
Deixou a todos encantados.

Águias, gaviões e corujas
Desistiram da competição
Pensaram que não tinham chance
Com as outras aves não

Além do mais uma nova etapa
Muito mais exigente,
Reunirá os classificados
E escolherá novamente

Dentre os selecionados
Pavão, Canarinho, Jacutinga e Beija-flor
Será escolhido aquele
Que melhor simbolize o amor

O Pavão foi logo dizendo
Com sua cara de espantado
Melhor símbolo sou eu
Que de tão lindo pareço encantado.

O Canarinho nada modesto
Cantarolou seu argumento
“O amor tem minha cara
E nem preciso de instrumento”

A Jacutinga por sua vez
Até que argumentou bem:
“Estou quase extinta
Feito o amor que já não se tem”

Mas lindo mesmo foi o Beija-Flor
Que disse bem humorado:
“Símbolo do amor sou eu,
Pois Deus já me fez coração alado.”

E todos nesse dia souberam
Que o beija-flor é todo coração
Melhor símbolo não haveria
Para ao amor fazer menção.

E Deus, sábio que é
Tratou logo de dizer:
Não ganhou por ser mais belo
Mas ganhou por merecer

Não adianta ser imponente
Nem ter asas grandes para voar
Basta ser todo amor
Com um coração pronto para amar.

Nessa grande competição
Quem mais se deu bem
Foi o beija-flor pequenino
Símbolo do amor e querer-bem.

Apocalipse Now


Cyntia Pinheiro 28/06/2012



Ontem me deparei com uma notícia na internet que me fez refletir um pouco: a Coca-Cola vendida no Brasil possui alto teor de uma substância cancerígena. Mas qual a novidade disso? A mim nada parece novo, afinal, se pararmos para pensar não existem mais alimentos saudáveis, exceto aqueles que você possa cultivar com as próprias mãos em sua horta ou no seu galinheiro particular, o mais está contaminado pela avareza humana.

Tudo é cancerígeno e não é necessário ser especialista para perceber isso, afinal, os casos de câncer vêm crescendo assustadoramente nas últimas décadas, resultado da nossa alimentação contaminada de produtos químicos, tais como conservantes, corantes, aromatizantes artificiais, etc.

Em meados da década de 80 – um tempo não muito distante – ouvia-se raramente falar de alguém que portava a doença, lamentavelmente, o diagnóstico era uma sentença de morte, hoje, felizmente muitos casos são tratáveis e alguns deles 100% curáveis, o que demonstra que não estamos lançados à própria sorte, a ciência evoluiu e continua evoluindo, prova de que Deus tem compaixão apesar de nossa irresponsabilidade.

Mas o câncer, embora tratável, é uma doença que gera muito sofrimento e, infelizmente, vitimará muitos de nós no futuro, porque a ganância do homem é muito maior do que o seu senso de moralidade.

Estamos acabando com o planeta e conosco mesmos. Somos escravos do dinheiro e é ele quem dita as normas por aqui. Quem pode pagar não fica mais com os cabelos encaracolados, porque o formol lhe dá um resultado perfeito, mas ninguém pensa nas consequências disso daqui uns anos. A vaidade é tão burra ou ingênua quanto inconsequente.

Não sabemos a procedência dos alimentos que consumimos, o leite dura seis meses ou mais dentro de uma caixa de papel, dobra-se o volume com água oxigenada, pouco importa se crianças o consumirão. Comidas prontas vendidas em caixinhas que duram “milagrosamente” até um ano. É hormônio para engordar o frango, e muito, muito mais... Coisas que nem imaginamos, tudo feito estrategicamente para enriquecer algumas pessoas sem a menor cogitação de respeito pelo semelhante.

Então partimos para uma dieta saudável, mais frutas, verduras, legumes e, iludidos, não conhecemos a procedência de nada, nem do volume lastimável de agrotóxicos utilizados em sua produção. A menos que plantemos nossa própria hortinha (aqueles que têm o privilégio de um espaço no quintal), estamos todos vivendo a falsa impressão de que nossa alimentação está saudável.

Isso demonstra quão vil é o homem e o quanto ainda precisamos evoluir. E isso vai levar tempo. Muitas gerações (se o planeta não derreter antes) ainda nascerão aqui para fazer o que precisa ser feito. Enquanto o dinheiro for mais importante do que a vida do outro, enquanto continuarmos destruindo essa magnífica biodiversidade do planeta terra a custa do enriquecimento material, enquanto os políticos continuarem solapando a grana da merenda das crianças que nada têm em casa para comer, enquanto continuarmos sendo essa gentinha que temos sido até aqui, não mereceremos habitar esse mundo maravilhoso que Deus nos deu.

Só um apocalipse mesmo para salvar esse planeta lindo de nossas garras tão cruéis, afinal, somos o câncer do planeta e ele está começando a fazer quimioterapia.